segunda-feira, 30 de abril de 2007

O Cheiro do Ralo

Cafajeste, sacana, egoísta, escroto, filho da p#!%*!!! Lourenço pode ser tudo isso, mas uma qualidade ele tem. Ele é honesto! Extremamente honesto! Até demais! Ele diz o que pensa das pessoas e diz na frente delas! Ninguém é poupado! Nem mesmo sua noiva! Além disso, ele possui uma verdadeira tara doentia pela bunda de uma atendente de lanchonete. Bom, já deu pra perceber que é preciso se desprover de valores morais para assistir a história de Lourenço.
Esse é o segundo filme de Heitor Dhalia, que teve sua primeira experiência no cinema com Nina (2004), inspirado no livro "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoievski. O Cheiro do Ralo é baseado no livro homônimo do cartunista Lourenço Mutarelli, que inclusive faz uma participação no filme como o segurança de Selton Mello. A trama do filme se passa numa época que nos remete aos anos 70, devido ao figurino e algumas gírias faladas pelos personagens, porém o dinheiro usado é o de hoje em dia, logo, o filme se propõe de forma atemporal. Vale destacar a excelente atuação de Selton Mello, que justifica o fato de ser um dos atores mais requisitados tanto no meio cinematográfico quanto de TV. É um ator que faz muito bem tanto comédia quanto drama, basta assistir filmes como Lisbela e o Prisioneiro (Diretor: Guel Arraes/2003) ou Lavoura Arcaica (Diretor: Luiz Fernando Carvalho/2001) para conhecer a versatilidade do ator. Atualmente ele pode ser visto na TV paga, no Canal Brasil com o seu programa sobre cinema Tarja Preta. Ele se declara uma apaixonado pelo cinema e agora está querendo também ir para trás das câmeras. Já dirigiu o clipe "Flerte Fatal" do Ira! e também o curta Quando o Tempo Cair. E está se preparando para dirigir o seu primeiro longa Feliz Noel.



O Cheiro do Ralo é a prova de que o cinema brasileiro está indo muito bem, obrigado! Tanto que o filme ganhou diversos prêmios na Mostra Internacional de São Paulo e no Festival do Rio, além de ter sido selecionado para o Sundance, nos EUA.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

12º Festival É Tudo Verdade

Foto: Krzysztof Kieslowski


Muita sorte a minha estar no Rio na época em que aconteceu o É Tudo Verdade. O nome desse festival faz referência a um filme inacabado de Orson Welles que foi rodado no Brasil. E pelo nome dá pra perceber que se trata de um festival só de documentários. Todo ano eles fazem uma homenagem, em forma de retrospectiva, de um diretor. E nesse ano foi a vez do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski (1941-1996). No total, foram exibidos 17 curtas dele e outros 3 filmes sobre ele. Um dos que eu assiti, “Krzysztof Kieslowski: Eu Estou Mais ou Menos”, foi dirigido pelo seu amigo e também seus assistente de direção Krzysztof Wierzbicki. No filme, vemos Kieslowski falando de seus curtas de início de carreira e de alguns de seus longas. Foi muito interessante ver o cineasta falando de seus filmes e, principalmente sobre si mesmo. Foi possível perceber que a forma como ele se expressa, se parece um pouco com os seus filmes, ou seja, o sentimento não está nas palavras, mas nas entrelinhas dos gestos e das imagens.

Depois do último filme da trilogia das cores (“A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”), Kieslowski anunciou que não iria mais fazer filmes, porém escreveu um roteiro para uma nova trilogia: Paraíso, Purgatório e Inferno, baseada na "Divina Comédia" de Dante Alighieri. Não se sabe se ele próprio realizaria esses filmes, já que faleceu em 1996. O diretor Tom Twyker (de Corra Lola Corra) filmou “Paraíso” (Heaven, 2002) estrelado por Cate Blanchet e Giovanni Ribisi, e em breve veremos “Inferno” (L'Enfer, 2005) dirigido por Danis Tanovic (de Terra de Ninguém), que já foi lançado, porém ainda não chegou ao Brasil.


No documentário, Kieslowski não revela o motivo que o fez parar de fazer filmes, mas o que fica implícito é uma espécie de decepção com alguma coisa que não conseguimos descobrir. Enfim, só podemos lamentar, porque sem suas imagens acabamos perdendo um pouco de poesia e sensibilidade que era único no estilo de seus filmes. O impacto que ele provocou não foi no tocante a efeitos especiais e nem inovações técnicas, mas sim na relação público X cinema. Ele parecia querer nos mostrar o invisível de um sentimento que é comum em todos nós, algo que está além das imagens e das palavras, mas que existe e é latente em nosso mais íntimo.