sexta-feira, 8 de junho de 2007

Santiago

Esse é o título do último documentário de João Moreira Salles. Santiago foi o mordomo da família Salles por trinta anos e ele é o personagem principal do filme, porém o coadjuvante da história de vida do próprio João Moreira.

Tive a oportunidade de assistir ao filme seguido de um debate com o diretor, que explicou ter feito as imagens para o documentário em 1992, porém optou por não montá-lo naquela época. Somente em 2006 resolveu retomar a idéia. Baseado no material bruto percebeu que a sua relação com o personagem de seu filme era de extrema distância, mesmo este lhe sendo tão íntimo. Como o próprio João disse, “ainda bem que não fiz o documentário naquela época, senão Santiago seria o objeto e não o sujeito do filme”. O que impressiona e comove é a exposição do diretor em se inserir na narrativa, tanto quando ouvimos suas interferências durante as falas de Santiago, quanto a própria narração do filme, que é feita em off e em primeira pessoa, representada pela voz de seu irmão. Além disso, João questiona as próprias imagens do filme de uma forma muito honesta, até porque ele mesmo confessa que nem se lembrava como havia feito na época. E isso nos remete ao fato de também assumirmos tal postura ao se assistir um documentário, já que a realidade das imagens podem, e quase sempre são, produzidas e não apenas filmadas.

Assim, como Cabra Marcado para Morrer (1964/84), de Eduardo Coutinho, Santiago também é um filme sobre o filme, que acaba por revelar um fato real da própria vida do diretor. João diz que gosta de filmar o acaso, os intervalos, e não as circunstâncias principais da vida das pessoas. Isso fica bastante evidente em Entreatos (2004), em que o filme acompanha a campanha de Lula pelo Brasil, optando por mostrar justamente as situações ocorridas fora dos comícios. João acredita que são nesses breves momentos que conseguimos captar realmente a realidade de uma pessoa e/ou de uma situação. E por coincidência, foi justamente o acaso que o fez querer remontar um filme que deveria ter sido feito há tantos anos atrás, mas que ao ser por ele revisto, o fez questionar toda sua postura em relação ao seu posicionamento como diretor de filmes e como pessoa.