quarta-feira, 16 de abril de 2008

Juízo (2008)


A diretora Maria Augusta Ramos volta a temática sobre a justiça brasileira em seu segundo longa-metragem, Juízo. O documentário mostra o funcionamento da justiça em relação a jovens com menos de 18 anos. O foco do filme é um tanto delicado, já que a lei brasileira proíbe o uso da imagem de menores infratores. A solução encontrada pela diretora foi de usar jovens atores de comunidades carentes para interpretarem os casos reais mostrados no filme. Todos os demais personagens, como juízes, promotores, familiares e outros, são realmente eles mesmos.

Assim como no seu primeiro longa, Justiça (2004), Maria Augusta mantém a câmera estática, quase que como um olhar neutro dos acontecimentos narrados dentro da sala de audiência. A montagem nos permite ver a reação dos jovens ao ouvirem suas sentenças. Apesar, destes serem atores, é possível percebermos uma certa identificação com os personagens reais. A escolha por jovens atores de comunidades carentes se deve justamente ao fato de que a realidade interpretada por eles não lhes é tão distante do que também vivenciam.

O curioso de Juízo é que apesar de tratar de casos de furtos, tráfico de drogas e até homicídio, ele não é um filme pesado. Talvez isso se deva graças a Juíza Luciana Fiala, que conduz as audiências com uma postura quase que como uma mãe extremamente aborrecida com os seus “filhos” desobedientes. Porém, o tom cômico dado por ela ao filme, de forma alguma debocha das situações ali narradas. Pelo contrário, enfatiza ainda mais que os motivos dos crimes realizados por aqueles jovens, muitas vezes, são banais e podiam ser evitados caso alguém lhes “puxassem a orelha”.

O que fica claro, tanto em Justiça, quanto em Juízo é a distância que existe entre aqueles que formulam as leis e a prática delas no contexto real. E isso abrange não só a interpretação dessas leis em si, mas os protocolos a serem seguidos, os trajes usados, e principalmente, a linguagem empregada para lidar com esses infratores. No caso dos jovens, isso fica ainda mais evidente. Tanto que em um dos casos retratados no filme, o menor fugiu da instituição um dia antes de ser solto. Tudo porque ele não sabia que o termo empregado pelo juiz significava justamente que ele estaria livre. Isso só comprova que, não só a justiça, mas o Poder Público em geral, precisa entender que toda a papelada, a burocracia e os códigos administrativos são criados para lidar com pessoas, sejam elas iletradas ou não, que não pertencem ao mesmo nicho linguístico desses poderes
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