quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

2012



É o fim do mundo!! 21 de dezembro de 2012. Anotem a data. E quer saber, eu não me importo que o mundo se acabe. Sinceramente, acho que esse mundo já deu o que tinha que dar, tanto nas questões que dizem respeito ao relacionamento humano: violência, corrupção, injustiça, ignorância, inversão de valores e falta de compreensão. Quanto no que diz respeito ao próprio clima do planeta: calor insuportável e chuvas que mais parecem dilúvios. É realmente de se pensar que o fim esta próximo.

O bom de quando algo se acaba, é que pode haver uma nova chance para um recomeço. Uma segunda oportunidade para nos fazer pensar no que fizemos de errado para que tudo se acabasse enfim. 2012, no entanto, não consegue fazer essa reflexão como foi feita, por exemplo, em outro blockbuster também sobre o fim de mundo, O Dia Depois do Amanhã, que aliás também foi dirigido por Roland Emmerich. Neste último, se optou pelo mote da questão ecológica. E já em 2012 se parte do mito do calendário escrito pela civilização Maia, que prevê fortes possibilidades de maremotos, terremotos e outras séries de graves problemas climáticos. Na verdade, a explicação dada no filme é extremamente vaga. Afinal, nos blockbusters catastróficos, em geral, o que importa não é muito o motivo, mas sim os efeitos especiais que sempre surpreendem pela perfeição e exageros.

E acho que realmente não seria uma má idéia que houvesse um novo recomeço. Inclusive acho que o mundo poderia começar se acabando pelo Brasil mesmo, mais especificamente em Brasília, e depois nas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Bom, em 2012 há uma cena do Cristo Redentor se desmantelando (hehehe... é bem legal!). Essas grandes cidades, inclusive, às vezes, me dão a sensação que elas mesmas irão explodir. São tantos carros, tanta gente andando na rua, trânsito, moradores de rua, sujeira, barulho, poluição... aaaaarrrrghh... boomm!!! E aí alguns países, poderiam não ser afetados, como algum da Europa ou da Ásia. Os poucos que sobrevivessem teriam que ir morar nesses países e tendo como missão recomeçar suas vidas, criando novos conceitos, novos mitos e uma nova cultura. Repensar se da forma que estávamos vivendo antes era realmente o melhor para todos, para todos e não apenas para alguns.

Talvez eu esteja soando um pouco pessimista, confesso, mas o mundo atual nos leva cada vez mais a crer que não há solução para determinadas coisas. Parece que estamos constantemente dando socos em pontas de facas. Os governantes, os empresários e todos que detêm o poder parecem realmente pretender acabar não só com o mundo, mas também com o antigo e esquecido conceito de certo e errado, com a nossa liberdade, independência, criatividade, solidariedade, individualidade, respeito, enfim com toda a essência pela qual nos identificamos como seres humanos, se é que ainda nos identificamos como tal. E o oposto disso tudo é só o que constantemente vemos e vivenciamos. As coisas estão cada vez mais difíceis para todos, e no entanto, se vende a ilusão que tudo está melhorando e vai melhorar ainda mais. Acho isso uma grande mentira! Tenho pena da nova geração de pessoas que terá que enfrentar um mundo que parece não mais caber em si: disputa de vaga para se conseguir estudar, trabalhar, e quando se consegue, ainda tem que sobreviver com um salário baixo, contas, dívida, e por aí vai. Por essas e por outras, é que penso que só um recomeço pode salvar um mundo e a nós próprios, portanto... que venha 2012!!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo



Esta bela frase dá título ao também belo filme de Karim Ainouz (Madame Satã e O Céu de Suely) e Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus). O filme está em competição dentro da mostra Premiére Brasil, do Festival do Rio 2009. Apesar de ainda não ter assistido a todos os outros 10 filmes brasileiros que estão em competição, estou apostando que algum prêmio importante o filme irá levar, quiçá o de melhor longa de ficção, ou de melhor direção.

Esses dois diretores brasileiros mostram na tela que possuem uma enorme afinidade cinematográfica, ao ponto de co-dirigirem um filme de forma admirável e ainda com uma narrativa extremamente ousada. Os dois também nasceram em cidades da região nordeste. Marcelo é de Recife (PE) e Karim é de Fortaleza (CE). E esse fato, com certeza, influenciou na escolha dos dois em fazerem um filme sobre uma viagem que perpassa várias cidades do sertão nordestino. Então, em 1999, eles juntaram uma pequena equipe e resolveram fazer essa viagem, que partiu de Juazeiro do Norte (CE), passou por Pernambuco, Paraíba, Sergipe e Alagoas. Foram registrando tudo usando uma câmera super 8, uma digital e outra fotográfica. Nessa época eles só sabiam o que queriam fazer, mas não sabiam ainda como iriam transformar aquelas imagens em um filme. Só depois surgiu a idéia de criar um personagem, um geólogo que faz essa viagem para fazer um estudo sobre a construção de um canal, e também para tentar esquecer a perda de um grande amor. Com isso, o filme ganha uma enorme abrangência, tanto na sua linguagem, pois é uma mistura de documentário com ficção, quanto na beleza do tema em si. Graças as paisagens e as pessoas que o personagem vai encontrando pelo caminho, o filme se torna um grande exercício de reflexão sobre a vida, a vida dos brasileiros, a nossa própria vida, o amor e a perda dele.

A narrativa do filme é o tempo todo em câmera subjetiva, ou seja, o ponto de vista do personagem principal. E em nenhum momento vemos quem ele é, só escutamos sua voz, a sua narrativa. Esse recurso faz com que o filme se transforme em uma verdadeira experiência para nós, os espectadores. É quase como se nós nos tornássemos aquele personagem e assim passamos a sentir o que ele sente. O filme se torna um interessante e profundo processo de introspecção. Tudo porque o nosso olhar passa ser o olhar daquele personagem. Porém, cada um irá interagir e reagir de forma diferente, pois a experiência de vida dele se mistura a experiência de vida de cada um de nós. E isso faz com que cada um construa internamente e paralelamente o seu próprio filme. O trabalho do ator (Irandir Santos), que interpreta esse personagem também é sensacional, pois suas emoções são passadas somente através da sua voz.

O filme ainda não tem previsão de data de estreia. Depois do Festival do Rio, ele será exibido na Mostra de São Paulo. Só nos resta ficar na torcida para ele entrar em circuito e possibilitar que uma maior quantidade de pessoas possam participar dessa maravilhosa experiência que o filme proporciona. Que bom que o Brasil finalmente retomou o cinema, mesmo ainda sendo muito difícil se fazer cinema no Brasil. Pessoas talentosas e apaixonadas por essa arte encorajam e estimulam todos que também admiram e querem fazer cinema, principalmente um cinema como esse, de coragem, beleza e grandiosidade.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bruno



A linha de humor seguida pelo ator inglês Sacha Baron Cohen é a do estilo ácido, bem ácido. E isso os espectadores, de uma forma geral, já estão acostumados. Nos EUA essa linha de humor possui vários adeptos, como Whoopi Goldberg, Chris Rock e Sarah Silverman. Todos eles não têm papas na língua e alfinetam tudo e todos com um humor extremamente agressivo e hilariantemente perturbador. Porém, Sacha vai além. Podemos dizer que além da acidez, o seu humor é kamikaze! Ele realmente joga os seus personagens em situações que ultrapassam os limites do possível. Isso aconteceu com Borat (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, 2006) e se repete com Bruno.


Assim como Borat, Bruno também é um repórter, porém do mundo da moda. Ele é gay, austríaco e trabalha para um programa de TV chamado Funkyzeit. Outro fato em comum com Borat, é que ambos personagens são de países não muito populares (Cazaquistão e Áustria) e que decidem ir para os EUA para tentarem alcançar algum tipo de sucesso em suas missões. Bruno é demitido após se envolver em vários pequenos incidentes. Assim resolve ir para os EUA para se tornar uma verdadeira celebridade. A partir daí começa a se desencadear uma série de situações tanto inacreditavelmente hilárias quanto chocantemente bizarras.


O estilo de filmagem é do tipo documentário. Algumas cenas são armadas e outras não, como a entrevista dele com um terrorista. Armadas ou não, o que importa é que ele acaba mostrando, e de uma forma sarcasticamente crítica, que as suas bizarrices estão em páreo com o que realmente existe nos EUA. Ou existe algo mais bizarro do que uma mãe aceitar a possibilidade de seu filho pequeno fazer uma lipoaspiração para aparecer numa foto. Sem falar em uma empresa que presta consultoria sobre caridade, ou seja, o que está "in" ou "out" em termos de ajuda solidária ou doações a países subdesenvolvidos. Dessa forma, só resta a Bruno realmente apelar para o estilo maior de ironia e sarcasmo para encarar coisas que parecem brincadeira, porém na verdade não são. Algumas vezes a comédia é a única saída para se tratar assuntos seriamente preocupantes, principalmente no mundo em que vivemos hoje que é regido pelo cinismo, demagogia e hipocrisia. Palmas para Bruno e vamos rir da nossa hilária trágica realidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

3 MACACOS


O diretor turco Nuri Bilge Ceylan vem se destacando cada vez mais no Festival de Cannes. Em 2006, o seu filme Climas (Iklimler, 2006) ganhou como o Melhor Filme Pela Crítica Internacional. E em 2008, ele venceu o prêmio de Melhor Direção com 3 Macacos (Üç Maymun, 2008).

A história começa com um atropelamento, seguido de um pedido do autor do acidente, que no caso é um político em plena campanha eleitoral, para que o seu motorista assuma a culpa e vá preso em seu lugar. Em troca ele receberá um bom dinheiro quando sair da prisão.

Os personagens dessa história nos são apresentados de forma bem sutil. O ambiente e o clima do filme ganham um tom interessante graças aos planos, que são todos parados e longos, funcionando como uma premissa das situações que se mostram logo em seguida. A ausência de trilha sonora, faz com que os sons também se tornem uma importante peça para a narrativa. Seja o trovão que inicia e termina o filme, ou o barulho do trem que passa ao lado da casa em que eles moram. É um filme que possui vários elementos ocultos e metafóricos que permeiam as entrelinhas da história, além de várias sacadas geniais, como uma cena de elipse utilizada durante o diálogo que se passa no carro, entre o político e esposa do motorista.

O título do filme é mais uma surpresa à parte, pois faz referência a famosa imagem dos três macacos, sendo um tapando os ouvidos, outro tapando a boca e o último tapando os olhos. Trata-se do provérbio japonês: não ouça, não fale e não veja o mal. E esses três macacos são justamente a família do motorista, que nunca conversam sobre os problemas que se passam entre eles. Os dramas e angústias dos personagens não acontecem através de palavras, porém são exemplarmente expressadas graças a uma excelente direção de Ceylan que realmente faz jus ao prêmio recebido em Cannes e nos presenteou com uma verdadeira aula de cinema.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Exterminador do Futuro 4: Salvação




Parece que agora virou uma tendência em Hollywood em transformar os vilões em figuras mais complexas e muito mais interessantes que os heróis. Assim foi o Coringa de “Batman, O Cavaleiro das Trevas” e assim é o Marcus do “Exterminador do Futuro 4”. Que inclusive por uma coincidência, os heróis de ambos filmes são vividos pelo ator Christian Bale. Com o roteiro assinado pelos mesmos autores do terceiro filme da série, dessa vez eles conseguiram não só se aprofundar mais na história como tecer uma boa costura entre os três filmes anteriores. McG, o diretor que tem nome de rapper e que dirigiu “As Panteras”, comprova sua excelência para as cenas de ação. Logo no início do filme, há um plano sequência incrível do John Connor pilotando um helicóptero.

O filme se passa num futuro nem tão distante assim, no ano de 2018, em que aquilo que foi previsto é inevitável e o Dia do Julgamento acontece. Tudo porque a Skynet, um software de defesa do serviço militar é acionado e adquire inteligência própria, e passa a ver os seres humanos como uma ameaça, um vírus que deve ser exterminado. Lança bombas por todo o mundo. Aqueles que sobreviveram se juntaram para combater as máquinas de guerra que foram criadas pelos próprios humanos.

O que vemos nesse filme é o nascimento dos primeiros protótipos de exterminadores cyborgs, o modelo T-800, que foram desenvolvidos para se parecerem com os humanos. É esse o modelo vivido por Arnold Schwarzenegger nos três filmes anteriores, e que inclusive tem uma aparição com o seu rosto inserido digitalmente no corpo de um exterminador. Essa estratégia usada pelas máquinas tem o intuito de facilitar a infiltração das mesmas entre os humanos e conseguirem sucesso no seu objetivo de exterminação.

John Connor realmente se torna o líder da Resistência na guerra contra as máquinas, porém o fato dele já saber no passado o que iria acontecer no seu futuro o deixa um tanto cego em relação ao seu presente. Isso fica claro quando ele conhece o Marcus, que deveria ser o seu inimigo e assim não o é, pois sua consciência ainda é humana. Ao invés de John usar isso a seu favor, são as máquinas que o usam, baseadas na previsibilidade comportamental de seu já conhecido herói. A fórmula dos outros filmes não se repete nesse episódio, não há um exterminador que vem para matar e um outro que vem para defender. Todos precisam salvar e serem salvos, porém a “Salvação” da humanidade não existe, talvez ela venha no Exterminador 5, que já está em fase de produção.

sábado, 4 de abril de 2009

Garapa


Este é o nome do mais novo documentário de José Padilha. Depois de Tropa de Elite (2007) ter sido premiado com o Urso de Ouro no “58º Festival de Cinema de Berlim”, Padilha volta ao cenário cinematográfico brasileiro levantando mais um debate social. Agora o seu foco está num tema extremamente cruel e duro de se encarar, a Fome. O filme foi feito em preto e branco e completamente ausente de trilha sonora. Antes da primeira exibição do documentário no Brasil, dentro da 14ª edição do festival “É Tudo Verdade”, Padilha diz que este é um filme em que o cinema por si só não importa, e sim a realidade ali impressa na tela. Porém, discordo do diretor. A escolha das imagens e a montagem se fazem presentes de modo muito forte dentro da narrativa do filme, pois as histórias das famílias se entrelaçam de uma maneira que na realidade, talvez, isso não fosse possível. E é justamente desse entrelace que conseguimos ter uma dimensão maior do que é a Fome e como ela atua de uma forma muito mais abrangente do que se pensa.

A Fome abordada no filme do Padilha, é uma fome que está ligada a pobreza não só de alimento, mas de roupas, de móveis, de educação, de saúde, de trabalho, enfim, de toda uma mínima estrutura social e humana que deveria fazer parte das vidas de qualquer pessoa. E o filme consegue mostrar isso tudo de uma forma dura e difícil de encararmos, porém, fato este que não deve ser ignorado. E acredito que o cinema, principalmente os documetários, também possuem esse papel, de termos um registro de fatos que, muitas vezes, ou são desconhecidos, ou não querem ser vistos. E tal tipo de postura artística e/ou política é de extrema importância para se levanter discussões e, quem sabe ações, que nos levem a melhorar, tanto a realidade ali mostrada na tela, como aquela que nos cerca.

No final da exibição o diretor se colocou a frente da platéia e respondeu a diversas perguntas, cujas respostas me levaram a pensar sobre uma outra questão, que é a impossibilidade de se fazer um documentário sobre pessoas sem interferir em suas vidas, e nem que elas intefiram na sua. E essa inquietação emocional pela qual se passam vários documentaristas é que faz com que suas obras sejam tão impactantes e marcantes. Afinal, a complexidade de como expor uma determinada realidade está intimamente ligada a subjetividade de quem a vê, tanto para aquele que a expõe quanto para os seus espectadores.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button



Fascinante! Essa é a melhor palavra para definir essa obra prima dirigida por David Fincher, que aliás vem se destacando cada vez mais, tanto pelo seu perfeccionismo nas imagens filmadas, como pelas temáticas interessantes de suas produções. Basta relembrarmos rapidamente da sua filmografia: Alien 3 (1992), Seven (1995), Vidas em Jogo (1997), Clube da Luta (1999), Quarto do Pânico (2001) e Zodíaco (2007).

No início do filme conta-se a história de um relojoeiro que perdeu seu filho na guerra e constrói um relógio que anda para trás. Em seu discurso, ele diz que fez o relógio dessa maneira para que fosse possível voltarmos no tempo e fazer com que os pais, que perderam seus filhos na guerra, os tivessem de volta. Essa breve história funciona como uma espécie de prefácio e de gancho para a história que está por vir. Baseado num conto de F. Scott Fitzgerald, o filme narra a saga de Benjamin, um neném que nasceu com a idade de um velho e que com o passar dos anos vai rejuvenescendo.

Brad Pitt interpreta de maneira sutil e serena um personagem muito especial, um menino num corpo de um velhinho. E não é isso que dizem, que quando envelhecemos voltamos a ser criança? No caso de Benjamin isso foi realmente levado a sério, tanto que sua melhor amiga e futura amante é Daisy, que ele conhece quando ela ainda era uma criança, assim como ele. Porém, a amizade dos dois é difícil de ser compreendida pelas pessoas, já que por fora Benjamin aparenta um senhor de idade avançada. Mas, como o tempo de Daisy está indo para frente e o de Benjamin para trás, então previmos que eles se encontrarão no meio do caminho, no meio das suas vidas, no momento certo. Enquanto isso Benjamin vai vivenciando aventuras e experiências que lhes acrescentam quanto um jovem velho ser humano.

Durante mais de duas horas de projeção, o filme não se mostra arrastado e nem cansativo. Pelo contrário, tem um ritmo apropriado para que fiquemos completamente hipnotizados e fascinados por essa delicada e emocionante fábula que fala sobre o amor, o tempo e a vida como uma experiência única de cada um de nós. O final do filme faz com que questionemos a lógica cronológica das nossas vidas, afinal os seres humanos são os únicos seres vivos que têm consciência da própria morte. Porém se o nosso ciclo de vida terminasse onde começamos, talvez fosse menos difícil lidarmos com a nossa própria partida.