sábado, 4 de abril de 2009

Garapa


Este é o nome do mais novo documentário de José Padilha. Depois de Tropa de Elite (2007) ter sido premiado com o Urso de Ouro no “58º Festival de Cinema de Berlim”, Padilha volta ao cenário cinematográfico brasileiro levantando mais um debate social. Agora o seu foco está num tema extremamente cruel e duro de se encarar, a Fome. O filme foi feito em preto e branco e completamente ausente de trilha sonora. Antes da primeira exibição do documentário no Brasil, dentro da 14ª edição do festival “É Tudo Verdade”, Padilha diz que este é um filme em que o cinema por si só não importa, e sim a realidade ali impressa na tela. Porém, discordo do diretor. A escolha das imagens e a montagem se fazem presentes de modo muito forte dentro da narrativa do filme, pois as histórias das famílias se entrelaçam de uma maneira que na realidade, talvez, isso não fosse possível. E é justamente desse entrelace que conseguimos ter uma dimensão maior do que é a Fome e como ela atua de uma forma muito mais abrangente do que se pensa.

A Fome abordada no filme do Padilha, é uma fome que está ligada a pobreza não só de alimento, mas de roupas, de móveis, de educação, de saúde, de trabalho, enfim, de toda uma mínima estrutura social e humana que deveria fazer parte das vidas de qualquer pessoa. E o filme consegue mostrar isso tudo de uma forma dura e difícil de encararmos, porém, fato este que não deve ser ignorado. E acredito que o cinema, principalmente os documetários, também possuem esse papel, de termos um registro de fatos que, muitas vezes, ou são desconhecidos, ou não querem ser vistos. E tal tipo de postura artística e/ou política é de extrema importância para se levanter discussões e, quem sabe ações, que nos levem a melhorar, tanto a realidade ali mostrada na tela, como aquela que nos cerca.

No final da exibição o diretor se colocou a frente da platéia e respondeu a diversas perguntas, cujas respostas me levaram a pensar sobre uma outra questão, que é a impossibilidade de se fazer um documentário sobre pessoas sem interferir em suas vidas, e nem que elas intefiram na sua. E essa inquietação emocional pela qual se passam vários documentaristas é que faz com que suas obras sejam tão impactantes e marcantes. Afinal, a complexidade de como expor uma determinada realidade está intimamente ligada a subjetividade de quem a vê, tanto para aquele que a expõe quanto para os seus espectadores.