quinta-feira, 14 de outubro de 2010

VIP'S



Segundo uma teoria da Psicologia, a definição de quem somos seria a soma de três fatores: aquilo que pensamos que somos + aquilo que os outros pensam que somos + aquilo que pensamos que os outros pensam que somos. No caso de Marcelo Nascimento da Rocha, podemos dizer que ele fez uso dessa soma de uma forma, ao mesmo tempo, inocente e ambiciosa. A história dele é tão curiosa que gerou um livro escrito pela roteirista e escritora de obras infantis, Mariana Caltabiano, e ainda dois filmes, ambos exibidos no Festival do Rio 2010: o documentário Histórias Reais de Um Mentiroso e a ficção VIP’S, estrelada por Wagner Moura, que inclusive levou o prêmio Redentor de Melhor Filme e Melhor Ator.

O roteiro de Vip's ficou por conta de Bráulio Mantovani (Cidade de Deus, Tropa de Elite, entre outros), que mais uma vez demonstra um total domínio e inteligência ao transformar a narrativa literária em narrativa cinematográfica. A forma escolhida por Mantovani consegue surpreender e emocionar ao revelar toda a complexidade desse curioso personagem, que é interpretado brilhantemente por Wagner Moura. Ele consegue, diante dos nossos olhos, se passar por um adolescente na escola e ir crescendo e se transformando nas múltiplas personalidades do Marcelo.

O protagonista de Vip’s consegue convencer várias pessoas de ser quem ele não é. Isso só é possível porque a mentira está mais no fato de que todos acreditam na sua interpretação, ou seja, ela está mais nas mãos dos outros do que na sua própria. Afinal, como alguém conseguiu se passar por 16 pessoas diferentes? Ele já foi policial, bandido do PCC, guitarrista de banda, campeão de jiu-jitsu, e, o mais famoso caso de todos, filho do dono da GOL. Tal fato ocorreu durante o Recifolia, em que Marcelo foi parar na área vip, usufruindo de todas as mordomias. Tanto que chamou a atenção do repórter Amaury Jr., que estava presente registrando o evento. Esse momento foi mostrado no filme, inclusive com a participação do próprio Amaury. Vale a pena também conferir a entrevista verdadeira: http://www.youtube.com/watch?v=wfJ3OXwSfDU.

A definição de mentira, segundo o dicionário, é: “Afirmação contrária à verdade; Falsa persuasão, juízo falso; Fábula, ficção”. Já a definição de verdade é: “Concepção clara de uma realidade; Conformidade das coisas com o conceito que a mente forma delas”. Sendo assim, podemos considerar que A Verdade Absoluta não existe, ela está no subjetivo de cada um. Está ligada a uma realidade que pode ser criada de acordo com aquilo que se acredita e que faz com que os outros acreditem. O diretor dinamarquês Lars Von Trier, em seu filme, Os Idiotas, também abordou a questão de pessoas se passarem por quem não são. O filme narra a história de um grupo de pessoas que fingem ser doentes mentais, ou seja, realmente idiotas. Nesse caso, a intenção da mentira é provocar reações em outras pessoas, e não tanto para benefícios próprios. Diferente de Marcelo que não só tira vantagens, como acredita veemente em suas próprias mentiras.

Mentiroso compulsivo, doente, múltiplas personalidades, ou simplesmente um grande picareta. Seja qual for a verdade sobre as mentiras do Marcelo, confesso que simpatizei com ele e com tudo que ele provocou. A sua conduta nos leva a refletir que, com certo empenho, é possível desconstruimos a realidade de nossas vidas e reformularmos os nossos objetivos, crenças, tabus, paradigmas e tudo aquilo que, às vezes, consideramos intactamente verdadeiro.  

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Origem



Existe uma premissa artística de que uma vez pronto, o filme ou uma outra obra qualquer, deixa de pertencer ao diretor/criador e passa a pertencer aos seus espectadores e suas mais variadas interpretações. Tal alegação pode ser fortemente comprovada em A Origem, do diretor inglês Cristopher Nolan (Amnésia, Batman Begins e Cavaleiro das Trevas). Desde a primeira cena até a última, o filme faz com que nós, espectadores, possamos ter uma experiência extremamente cerebral de testar a nossa própria inteligência para que possamos compreender uma história de ficção científica cuja trama ocorre dentro de uma específica complexidade lógica.

É difícil escrever sobre o filme sem spoilers, mas de uma forma geral, a história se passa dentro da mente das pessoas, enquanto estão sonhando. O personagem de Leonardo Dicaprio e sua equipe têm a função de entrar na mente das pessoas para roubar informações e segredos. Pode-se dizer que seria uma espécie de Matrix ao contrário, enquanto neste as pessoas já vivem, inconscientemente, num mundo irreal e são “acordadas” para a realidade, em A Origem, elas buscam as verdades do mundo real dentro do mundo onírico.

Com esse mote, Nolan conseguiu fazer um filme que impressiona não só pelos efeitos visuais, como por um roteiro muito bem elaborado, que inclusive levou dez anos para ficar pronto. Os diálogos não são muito explicativos, no que diz respeito ao funcionamento do processo de se entrar nos sonhos das pessoas. No entanto, são extremamente reflexivos, tal como uma das falas iniciais do personagem Don, vivido por Dicaprio, que diz que o parasita mais resistente que existe é uma ideia. Com ela é possível construir cidades, transformar o mundo e recriar todas as regras.

Além dos diálogos, o roteiro de Nolan também faz, e muito bem, o uso do tempo narrativo cinematográfico, através da montagem paralela. Para expor as histórias ocorridas no universo do inconsciente, ele opta por um efeito cascata em que somos levados a pular de sonhos em sonhos sem que nos percamos. A cena em que a van está caindo é memorável, pois, através do recurso de dilatação do tempo, é possível com que tenhamos quatro momentos ocorrendo paralelamente.

Um detalhe que também vale destacar é que a produção tem versões com finalizações em IMAX. O filme mesmo foi rodado em 35 mm e algumas sequências em 65 mm, que são as melhores qualidades de imagem possíveis, abaixo do IMAX. No entanto, tais exibições só poderão ser vistas em São Paulo e Curitiba, que são os únicos lugares no Brasil que possuem salas com tais tipos de projeção. Enfim, em IMAX ou não, este é um filme grandioso, que ousa tanto pela tecnologia, quanto pelo conceito em si.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mary & Max - Uma Amizade Diferente


Que bom que ainda tive mais uma chance para assistir a essa incrível animação, que já havia saído de cartaz dos cinemas. Isso graças ao Anima Mundi 2010, já que o filme concorre dentro da categoria Longa-Metragem. A produção, feita em stop-motion, foi escrita e dirigida por Adam Elliot, que já levou vários prêmios, como o Crystal Bear (para a nova geração), no Festival de Berlim 2009.

Mary Daisy Dinkle é uma menina de 8 anos que vive na Austrália e tem muitas curiosidades a respeito de tudo que cerca a sua vida. Seus pais lhes são um tanto alheios às suas incansáveis perguntas e ela não tem muitos amigos. Assim, motivada pela sua imensa curiosidade, aleatoriamente, ela escolhe um nome de uma pessoa qualquer nos EUA, através de um livro de páginas amarelas nos correios. O nome que ela pega é de Max Jerry Horowitz, que é um homem de 44 anos, morador da cidade de Nova York. Ele vive sozinho em um pequeno apartamento e é uma pessoa bastante excêntrica, com muita dificuldade para se relacionar com outras pessoas.

A fotografia do filme é algo que chama a atenção. É engraçado fazer essa observação numa animação, mas não é só por ser uma animação que a fotografia é menos importante. Ao contrário, ela é ainda mais presente para uma narrativa em que tudo ali é feito de forma praticamente artesanal. Ou seja, todos os objetos, figuras, cores e iluminação foram milimetricamente pensados para traduzir uma ideia. A vida de Mary tem um tom meio amarronzado, que aliás, é a cor favorita dela, mas com algumas tonalidades coloridas. E a vida de Max é completamente preta & branca, tudo meio acinzentado. No entanto, os dois personagens estão em um tom meio cinza, tendo somente alguns detalhes que lhes dão algum colorido, como a fivela vermelha no cabelo preto de Mary.

A relação dos dois vai se estruturando cada vez mais através da troca de correspondências. Mary sempre fazendo inúmeras perguntas, todas muito interessantes e outras extremamente profundas, ao ponto de deixar Max completamente transtornado e levar dias para conseguir respondê-las. Aos poucos vamos percebendo que essa dificuldade de relacionamentos de Max é fruto de uma doença chamada Síndrome de Asperger, e que, com o passar dos anos, Mary vai aprendendo a lidar com ele, mesmo estando em outro continente. Tudo isso é feito com muito humor, utilizando o recurso de cenas que ilustram de forma engraçada a narrativa daquilo que é falado, já que a imaginação de ambos os personagens é de extrema peculiaridade. Por exemplo, quando Mary pergunta a Max o que fazer a respeito de um menino na escola, que fica caçoando de uma mancha de nascença que ela tem na testa, dizendo que é cocô. Max responde que ela deve dizer para esse menino que aquela mancha é, na verdade, sorvete e que ela, quando morrer, ficará encarregada, no céu, de distribuir todo o sorvete do mundo.

O filme emociona a todo momento, pois fala sobre as dificuldades da vida, os obstáculos que temos a ultrapassar, tanto quando ainda crianças até quando nos tornamos adultos. Ouvi algumas pessoas falarem que essa é uma produção depressiva, mas discordo considerando que ela fala profundamente sobre o valor da amizade e que é através desse sentimento que é possível conseguir lidar melhor com o mundo e com nós mesmos. E se não podemos ter esse sentimento em família, como é o caso de Mary, podemos buscá-lo em outras pessoas, até mesmo naqueles que moram distantes de nós. Portanto, ao contrário de depressivo, o filme nos enche de esperança, amor, altruísmo, revelando assim que tais sentimentos podem ser poderosos e transformadores na vida de qualquer pessoa, independente da idade, cultura, religião, sexo, ideologia ou o que mais nos diferencie. Afinal, os amigos são os parentes que temos a oportunidade de escolher.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mademoiselle Chambon e Brilho de uma Paixão



Dois filmes em uma mesma noite: "Mademoiselle Chambon" e "Brilho de Uma Paixão" (Bright Star). Dois filmes românticos, extremamente românticos, cada um à sua maneira. O primeiro se passa na nossa época atual, século XXI. O segundo, no século XIX. Mademoiselle veio da França (de onde mais?) e Bright Star veio da Inglaterra. Ambos os filmes foram escritos e dirigidos respectivamente por: Stéphane Brizé e Jane Campion.

"Mademoiselle Chambon" preza pelo silêncio e pela excelente e sutil atuação de seu elenco, que foi brilhantemente escolhido. Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain (que vive a personagem-título do filme) já foram casados na vida real, e no filme vivem um frágil e breve romance extraconjugal. Os diálogos entre os dois ocorrem, quase sempre, de forma metafórica. O primeiro momento se dá quando Jean (Vincent) vai até a escola para falar com as crianças sobre a sua profissão, que é de pedreiro. Um dos alunos lhe pergunta: "Uma casa pode durar para toda a vida?" A referência que se faz aí é justamente sobre o casamento. Ele pode durar toda a vida? E ele explica que tudo depende da fundação, da base que é feita para dar sustentação à "casa".

Como já é comum em produções francesas, aquilo que é não dito fala muito mais do que aquilo que é dito. E Stéphane consegue rechear o filme de momentos assim, com enquadramentos que nos fazem quase que perceber os pensamentos de seus personagens, e ao mesmo tempo, compreender as atitudes tanto de um quanto do outro. Não sei se concordo muito com a parte em que o romance extraconjugal é concretizado, ou seja, eles acabam dormindo juntos. Acho que o filme deveria acabar antes, pois o final já está mais do que previsível. Afinal, um típico romance francês terminaria sem isso, pois a condição de seus personagens está naquilo que se passa em suas almas e corações, e não na concretização física de seus sentimentos. Isso irrita algumas pessoas, principalmente se estão acostumadas a assitir produções americanas românticas que quase sempre terminam com um happy end. No entanto, o filme quebra esse estigma e faz com que pensemos que a não concretização se torne uma traição ainda maior, que seria a traição de si mesmo, de não admitir seus próprios sentimentos.

Já "Brilho de Uma Paixão", abusa devidamente das falas de seus personagens, uma vez que aborda um período da vida do poeta inglês John Keats. O poeta é vivido pelo ator Ben Whishaw, que também fez o protagonista de "Perfume - A História de Um Assassino". O título original do filme - Bright Star - é uma referência a um dos poemas de John. E realmente é a poesia que engrandece o filme. Os diálogos são sempre intercalados com os textos poéticos de John.

Diferente da produção francesa, aqui o problema do romance entre o poeta e sua vizinha, Fanny, é a sua falta de recursos financeiros para mantê-la. Ele é extremamente pobre e vive graças a favores de amigos. A sua poesia não vende e ele é considerado um fracasso. As regras da sociedade do século XIX não permitiam que uma dama se casasse com um cavalheiro que não possuísse nenhum bem ou certa condição financeira. No entanto, mesmo assim, eles vivem um romance atípico para a época e sofrem com todas as circuntâncias problemáticas dessa arrebatadora paixão. Paixão essa que, nesse caso, faz jus as produções inglesas de época (tais como adaptações de Jane Austen), ou seja, o sentimento de ambos não é concretizado fisicamente. Não acontece nada além de inocentes beijinhos.

Enfim, seja no silêncio, ou com palavras, podemos dizer que o mérito dessas duas produções nos emocionarem fica tanto a cargo de seus diretores/roteiristas, como também da interpretação que nós, espectadores, fazemos de suas obras. E que bom que ainda nos emocionamos com filmes sobre o amor, e que ainda somos capazes de enxergá-lo, em suas variadas formas. O nosso dia-a-dia pode ser bastante duro e difícil, mas não importa o que aconteça, é preciso conseguir enxergar a poesia por trás de tudo, sempre.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Polícia, Adjetivo



O dicionário é um instrumento que usamos para buscar por palavras que não sabemos, ou que estamos em dúvida sobre o seu significado. E o sentido que elas possuem é dado por pessoas, que assim como nós, também buscam compreender e interpretar não só palavras, mas também atitudes e situações que confrontamos no nosso dia-a-dia. Essas divagações se encontram refletidas de uma forma sutilmente brilhante no filme romeno Polícia, Adjetivo, do diretor Corneliu Porumboiu, que inclusive estava cotado para levar a Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 2009. E, no entanto, quem levou foi “A Fita Branca”, de Michael Hanneke.

O personagem principal está passando por um momento de dúvida ética a respeito do seu posicionamento perante o trabalho que desempenha como policial, e suas próprias crenças pessoais. Porém, antes de visualizarmos esse conflito interno, o que vemos e conhecemos é a rotina que ele está vivenciando no momento. Todos os dias ele segue um garoto suspeito de estar traficando drogas. Essa é a sua missão e somos inseridos nesse contexto através de longos planos e sequências que narram, de forma até repetida, os variados trajetos que o protagonista percorre.

A repetição é um recurso usado pelo diretor que nos remete à rotina
A repetição é um recurso usado pelo diretor que nos remete à rotina
A repetição é um recurso usado pelo diretor que nos remete à rotina

No cinema, de forma geral, as histórias narradas, por mais que pareçam rotineiras, não são mostradas como realmente são na vida real. Por meio de recursos de linguagem (elipses, cortes rápidos, flashbacks, entre outros), a rotina é mostrada de uma maneira mais rápida e dinâmica. No entanto, Porumboiu faz questão de planos que são quase documentais e acompanham todos os passos do protagonista. Um outro filme que também faz uso desse recurso de uma forma cadenciada e ritmada é “O Renascimento”, do diretor japonês Masahiro Kobayashi. Em ambos filmes, pode-se dizer que o hábito da rotina se transforma em o protagonista das histórias e seus personagens são meros figurantes presos em um cotidiano marcado por ações de trabalho incansavelmente repetidos.

A parte final do filme é o seu ponto alto. Acontece um diálogo extremamente profundo e inesperado entre o policial e seu chefe. A surpresa está não só no diálogo em si, mas também, na preocupação de um delegado de polícia e sua forma de argumentação com o seu funcionário. O título do filme é uma referência a esse momento, pois o chefe busca esclarecer, de forma prática e didática, fazendo uso até de um dicionário, para resolver o conflito interno e pessoal do seu subordinado. Afinal, que outro livro melhor poderia ser usado para encontrar significado e sentido de palavras e sentimentos do que um Dicionário? Talvez aquilo que nos aflija tanto não seja tão complexo e possa realmente ser resolvido de maneira mais fácil do que imaginamos. É como dizem por aí: A vida é simples, somos nós que a complicamos.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Os Famosos e os Duendes da Morte



Poeticamente inteligente. Acho que esse é o melhor adjetivo para se dizer sobre o filme de Esmir Filho, que foi vencedor do prêmio de Melhor Longa de Ficção no Festival do Rio 2009. Nada mal para o cara que ficou conhecido na intenet pelo vídeo “Tapa Na Pantera”. A produção é baseada no livro do gaúcho da cidade de Lajeado, Ismael Canappele, que também atua no filme. Porém, não se trata de uma adaptação, já que o livro e o roteiro foram escritos ao mesmo tempo.

Com uma fotografia maravilhosa e planos e enquadramentos muito bem dirigidos, o filme fala sobre um menino que mora num pequeno vilarejo, no interior do Rio Grande do Sul e que é fã de Bob Dylan. O seu universo é extremamente limitado devido as poucas opções que sua cidade oferece. Sendo assim, ele encontra como forma de expressão, o veículo da internet. Posta textos em seu blog e conversa com pessoas de outros lugares via MSN. No decorrer do filme, que intercala imagens de pequenos vídeos de internet de um casal, com a vida do protagonista, vamos compreendendo o porque daquelas imagens e qual é a ligação que os personagens possuem. Tudo isso é feito de uma maneira extremamente poética e com uma narrativa de sublime sutileza. Uma curiosidade é que esses vídeos e fotos mostrados no filme já existiam e são da atriz Tuane Eggers. Quem quiser, pode conferir no seu flickr Jingle Jangles: http://www.flickr.com/photos/uncolortv/

Além disso, o filme também fala sobre um assunto ainda não muito abordado e extremamente atual. Trata-se do que podemos chamar de os “fantasmas cibernéticos”, ou seja, pessoas que já morreram e, no entanto, ainda estão vivas no mundo virtual, com seus blogs, vídeos, sites de relacionamentos, etc. O que poderia ser um assunto mórbido, ganha um teor inspirador, melancólico e nostálgico. A questão de que a tecnologia de hoje pode nos distanciar uns dos outros cai por terra. Como já havia profetizado o cigano Melquíades (da obra de Gabriel García Márques, Cem Anos de Solidão), ao apresentar o incrível aparelho binóculo: “A ciência eliminou as distâncias. Dentro em pouco o homem poderá ver o que acontece em qualquer lugar da terra, sem sair da sua casa”. E agora podemos realmente fazer isso, inclusive até mesmo com pessoas que não mais estão entre nós.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Guerra ao Terror


O filme vencedor do Oscar 2010 não me conveceu. Li várias críticas tecendo elogios e mais elogios ao Guerra ao Terror. OK, tenho que admitir que a direção de Kathryn Bigelow é realmente digna de levar o prêmio de Melhor Direção. Mas, levar o Oscar de Melhor Filme acho que aí já é um pouco demais.
Não sei o que se passa. Sei muito bem que a premiação da Academia possui um significado muito mais voltado para o mercado hollywoodiano de negociações políticas entre produtores e estúdios, do que uma representação analiticamente cinematográfica em si. E mesmo já sabendo disso, continuei sem entender o porque de se premiar um filme como esse. O fato de Avatar não ganhar é como se não houvesse o reconhecimento dos milhões e milhões gastos no investimento de uma produção que eles mesmos bancaram. Eu posso até entender que talvez eles não quisessem dar esse prêmio para James Camerom, mas haviam outras opções lá na lista bem mais interessantes. Enfim, realmente a lógica da Academia é algo que foge de análises do valor do cinema como arte, e sim como uma mercadoria alimentada por uma indústria que gera um lucro fenomenal. 

The Hurt Locker é o título original, a tradução seria algo como "o armário da dor". Talvez uma referência a roupa especial que o personagem principal usa para desarmar as bombas. E a história se desenvolve dentro dessa temática: um esquadrão do exército que tem como finalidade desarmar bombas no Iraque. O herói do filme é o Sargento James que é muito bom no que faz e tem um perfil meio suicida. As cenas são muito bem filmadas e dirigidas, mas a história não diz nada. A não ser o velho cliché americano de sempre, ou seja, o soldado-herói que luta para defender o seu país. Em nenhum momento é levantada a seguinte questão, por exemplo: será que essas bombas já existiam antes da invasão dos EUA? E a narrativa da história passa uma imagem de que o soldado americano é um herói não só para o seu próprio povo, mas também para os iraquianos. Afinal, eles são tão bons que salvam a todos! A cena do homem-bomba, no final do filme, é extremamente forçada. O que se sabe sobre essa atribuição é que são pessoas de uma religião extremista, que sentem orgulho de serem designados para tal função. No entanto, o perfil do homem-bomba mostrado no filme é de um pai de família que diz ter sido obrigado a fazer aquilo e que as bombas presas no seu corpo lhes foram colocadas contra a sua vontade.

Não sei se estou sendo muito radical, afinal as informações que temos sobre essa guerra é o que nos é noticiado por jornais ocidentais. De qualquer forma, pegando parâmetros de outros filmes, principalmente os de produção não americanas, acho que Guerra ao Terror mascara algumas realidades em relação ao que realmente está acontecendo no Iraque. Para aqueles que gostaram desse filme, mas querem ter um outro parâmetro de comparação, recomendo a produção palestina Paradise Now, que mostra um íntimo retrato dessa atribuição de ser um homem-bomba. Mesmo não se passando no Iraque, acho que é válido para se ter uma outra visão. Talvez o significado da Academia premiar um filme como esse e não Avatar esteja justamente no reflexo do período atual que estamos passando, principalmente pós o vergonhoso fracasso de Copenhagem. Pensando assim, realmente é a temática de uma guerra com objetivos políticos e administrativos que deve vencer e não um filme que reacende a ideologia ecológica do planeta. E que venha 2012!!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Avatar



Depois de três semanas, finalmente consegui comprar o ingresso (pela internet) para assistir Avatar 3D. O filme mais falado do momento e que já bateu todos os recordes de bilheteria. A primeira vez que vi o trailer do filme, confesso que achei tudo meio fantasioso demais. Mas, isso não seria uma barreira, pois tratava-se de um filme de James Cameron, que é um diretor que admiro muito, tanto pelo talento como diretor quanto como roteirista. Característica aliás bem rara em Hollywood hoje em dia, um diretor que também escreve o roteiro de seus próprios filmes. Só para relembrar: O Exterminador do Futuro 1 e 2, Aliens - O Resgate, Titanic, e por aí vai.

E o filme é muito mais do que o trailer mostra, muito mais mesmo! E não é só pelos efeitos revolucionadamente especiais. E nem pelo fato de ter sido meu primeiro filme em 3D. O filme fala de algo extremamente profundo e que nos remete à nossa essência enquanto seres humanos. E o paradoxo maior é que o diretor-autor teve que desenvolver toda uma nova tecnologia cinematográfica (que demorou dez anos), para mostrar algo que é extremamente simples e primitivo: a importância da conexão do homem com a natureza.

Acho que esse é um filme pós-apocalíptico ecologicamente correto. Talvez seja o recomeço pós 2012. Depois do “fim do mundo” que a natureza nos proporcionará por tratá-la da forma como vimos tratando (taí Copenhagem como prova), o que nos resta depois de tudo é fazer as pazes com ela. Nos reconectarmos com o básico. No entanto, talvez isso não seja mais possível diante da forma que nos encontramos atualmente. Talvez, num futuro próximo, seja necessário adotarmos um outro corpo, pois o nosso está totalmente doente e com terríveis vícios nocivos. Talvez só mesmo em um Avatar é que tenhamos a possibilidade de refazer essa conexão perdida há muitos e muitos anos atrás.

O conceito da palavra Avatar vem, primeiramente, da religião hinduísta (do sânscrito, Avatara), e significa encarnação do espírito de um ser divino num corpo material. No caso do filme, essa possibilidade passa a ser meio que inversa, ou seja, o nosso "corpo" passa a ser o corpo de um outro ser. Sendo assim, o nosso corpo deixa de existir e a nossa essência e consciência são transferidas para um outro corpo. Esse argumento do filme que mistura religião e ficção pode nos deixar meio zonzos, mas o importante é que a mensagem que fica é "conecte-se". Conecte-se com a natureza, uns com os outros, vivos, mortos, presente, passado e usufrua de uma sabedoria que já existe e que já está aí a nossa volta, basta que consigamos enxergar, mesmo que para isso seja preciso se transformar num Avatar.