terça-feira, 20 de julho de 2010

Mary & Max - Uma Amizade Diferente


Que bom que ainda tive mais uma chance para assistir a essa incrível animação, que já havia saído de cartaz dos cinemas. Isso graças ao Anima Mundi 2010, já que o filme concorre dentro da categoria Longa-Metragem. A produção, feita em stop-motion, foi escrita e dirigida por Adam Elliot, que já levou vários prêmios, como o Crystal Bear (para a nova geração), no Festival de Berlim 2009.

Mary Daisy Dinkle é uma menina de 8 anos que vive na Austrália e tem muitas curiosidades a respeito de tudo que cerca a sua vida. Seus pais lhes são um tanto alheios às suas incansáveis perguntas e ela não tem muitos amigos. Assim, motivada pela sua imensa curiosidade, aleatoriamente, ela escolhe um nome de uma pessoa qualquer nos EUA, através de um livro de páginas amarelas nos correios. O nome que ela pega é de Max Jerry Horowitz, que é um homem de 44 anos, morador da cidade de Nova York. Ele vive sozinho em um pequeno apartamento e é uma pessoa bastante excêntrica, com muita dificuldade para se relacionar com outras pessoas.

A fotografia do filme é algo que chama a atenção. É engraçado fazer essa observação numa animação, mas não é só por ser uma animação que a fotografia é menos importante. Ao contrário, ela é ainda mais presente para uma narrativa em que tudo ali é feito de forma praticamente artesanal. Ou seja, todos os objetos, figuras, cores e iluminação foram milimetricamente pensados para traduzir uma ideia. A vida de Mary tem um tom meio amarronzado, que aliás, é a cor favorita dela, mas com algumas tonalidades coloridas. E a vida de Max é completamente preta & branca, tudo meio acinzentado. No entanto, os dois personagens estão em um tom meio cinza, tendo somente alguns detalhes que lhes dão algum colorido, como a fivela vermelha no cabelo preto de Mary.

A relação dos dois vai se estruturando cada vez mais através da troca de correspondências. Mary sempre fazendo inúmeras perguntas, todas muito interessantes e outras extremamente profundas, ao ponto de deixar Max completamente transtornado e levar dias para conseguir respondê-las. Aos poucos vamos percebendo que essa dificuldade de relacionamentos de Max é fruto de uma doença chamada Síndrome de Asperger, e que, com o passar dos anos, Mary vai aprendendo a lidar com ele, mesmo estando em outro continente. Tudo isso é feito com muito humor, utilizando o recurso de cenas que ilustram de forma engraçada a narrativa daquilo que é falado, já que a imaginação de ambos os personagens é de extrema peculiaridade. Por exemplo, quando Mary pergunta a Max o que fazer a respeito de um menino na escola, que fica caçoando de uma mancha de nascença que ela tem na testa, dizendo que é cocô. Max responde que ela deve dizer para esse menino que aquela mancha é, na verdade, sorvete e que ela, quando morrer, ficará encarregada, no céu, de distribuir todo o sorvete do mundo.

O filme emociona a todo momento, pois fala sobre as dificuldades da vida, os obstáculos que temos a ultrapassar, tanto quando ainda crianças até quando nos tornamos adultos. Ouvi algumas pessoas falarem que essa é uma produção depressiva, mas discordo considerando que ela fala profundamente sobre o valor da amizade e que é através desse sentimento que é possível conseguir lidar melhor com o mundo e com nós mesmos. E se não podemos ter esse sentimento em família, como é o caso de Mary, podemos buscá-lo em outras pessoas, até mesmo naqueles que moram distantes de nós. Portanto, ao contrário de depressivo, o filme nos enche de esperança, amor, altruísmo, revelando assim que tais sentimentos podem ser poderosos e transformadores na vida de qualquer pessoa, independente da idade, cultura, religião, sexo, ideologia ou o que mais nos diferencie. Afinal, os amigos são os parentes que temos a oportunidade de escolher.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mademoiselle Chambon e Brilho de uma Paixão



Dois filmes em uma mesma noite: "Mademoiselle Chambon" e "Brilho de Uma Paixão" (Bright Star). Dois filmes românticos, extremamente românticos, cada um à sua maneira. O primeiro se passa na nossa época atual, século XXI. O segundo, no século XIX. Mademoiselle veio da França (de onde mais?) e Bright Star veio da Inglaterra. Ambos os filmes foram escritos e dirigidos respectivamente por: Stéphane Brizé e Jane Campion.

"Mademoiselle Chambon" preza pelo silêncio e pela excelente e sutil atuação de seu elenco, que foi brilhantemente escolhido. Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain (que vive a personagem-título do filme) já foram casados na vida real, e no filme vivem um frágil e breve romance extraconjugal. Os diálogos entre os dois ocorrem, quase sempre, de forma metafórica. O primeiro momento se dá quando Jean (Vincent) vai até a escola para falar com as crianças sobre a sua profissão, que é de pedreiro. Um dos alunos lhe pergunta: "Uma casa pode durar para toda a vida?" A referência que se faz aí é justamente sobre o casamento. Ele pode durar toda a vida? E ele explica que tudo depende da fundação, da base que é feita para dar sustentação à "casa".

Como já é comum em produções francesas, aquilo que é não dito fala muito mais do que aquilo que é dito. E Stéphane consegue rechear o filme de momentos assim, com enquadramentos que nos fazem quase que perceber os pensamentos de seus personagens, e ao mesmo tempo, compreender as atitudes tanto de um quanto do outro. Não sei se concordo muito com a parte em que o romance extraconjugal é concretizado, ou seja, eles acabam dormindo juntos. Acho que o filme deveria acabar antes, pois o final já está mais do que previsível. Afinal, um típico romance francês terminaria sem isso, pois a condição de seus personagens está naquilo que se passa em suas almas e corações, e não na concretização física de seus sentimentos. Isso irrita algumas pessoas, principalmente se estão acostumadas a assitir produções americanas românticas que quase sempre terminam com um happy end. No entanto, o filme quebra esse estigma e faz com que pensemos que a não concretização se torne uma traição ainda maior, que seria a traição de si mesmo, de não admitir seus próprios sentimentos.

Já "Brilho de Uma Paixão", abusa devidamente das falas de seus personagens, uma vez que aborda um período da vida do poeta inglês John Keats. O poeta é vivido pelo ator Ben Whishaw, que também fez o protagonista de "Perfume - A História de Um Assassino". O título original do filme - Bright Star - é uma referência a um dos poemas de John. E realmente é a poesia que engrandece o filme. Os diálogos são sempre intercalados com os textos poéticos de John.

Diferente da produção francesa, aqui o problema do romance entre o poeta e sua vizinha, Fanny, é a sua falta de recursos financeiros para mantê-la. Ele é extremamente pobre e vive graças a favores de amigos. A sua poesia não vende e ele é considerado um fracasso. As regras da sociedade do século XIX não permitiam que uma dama se casasse com um cavalheiro que não possuísse nenhum bem ou certa condição financeira. No entanto, mesmo assim, eles vivem um romance atípico para a época e sofrem com todas as circuntâncias problemáticas dessa arrebatadora paixão. Paixão essa que, nesse caso, faz jus as produções inglesas de época (tais como adaptações de Jane Austen), ou seja, o sentimento de ambos não é concretizado fisicamente. Não acontece nada além de inocentes beijinhos.

Enfim, seja no silêncio, ou com palavras, podemos dizer que o mérito dessas duas produções nos emocionarem fica tanto a cargo de seus diretores/roteiristas, como também da interpretação que nós, espectadores, fazemos de suas obras. E que bom que ainda nos emocionamos com filmes sobre o amor, e que ainda somos capazes de enxergá-lo, em suas variadas formas. O nosso dia-a-dia pode ser bastante duro e difícil, mas não importa o que aconteça, é preciso conseguir enxergar a poesia por trás de tudo, sempre.