quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A Pele Que Habito



Considero que neste filme Almodóvar conseguiu atingir o seu maior grau de sofisticação cinematográfica, tanto pela escolha original da história, quanto, e principalmente, pela narrativa orquestrada de forma instigante.

Antonio Banderas vive um cirurgião plástico de sucesso. Mora em uma mansão com uma governanta (Marisa Paredes), alguns criados e uma "hóspede" (Elena Anaya) que é mantida em cárcere, trancada em um dos quartos da casa. Aos poucos o filme vai revelando a relação entre os personagens e a história por trás de cada um. No início, temos a ideia de que Banderas é um cirurgião sem ética e que faz uso de uma cobaia viva para os seus experimentos. No entanto, o filme surpreende de maneira chocante e brutal.

A relação do cirurgião com sua cárcere me remeteu um pouco a uma relação que Almodóvar tratou em um outro filme seu, "Ata-me" (idem, 1990), também interpretado por Banderas. A semelhança dos dois personagens está no fato de que ambos sequestram uma pessoa para mantê-la em cativeiro e possuem o desejo de transformá-las. No caso de "Ata-me", o desejo de transformação é interna, de sentimento. De fazer com que sua presa se apaixone por ele. E em "A Pele" o desejo é a da transformação externa de seu prisioneiro. No entanto, a mudança interna ocorre no sequestrador e não no sequestrado. Essa questão de mudança de aparência me lembrou também um outro filme. "Time" (Shi Gan, 2006), do diretor sul coreano, Kim Ki-duk. Neste, a namorada de um rapaz resolve fazer uma cirurgia plástica e mudar de rosto como forma de testar o amor do namorado. A aparência está ligada ao sentimento ou o sentimento é que está ligado a aparência? E se alguém que você ama ganhasse um rosto totalmente diferente? E se uma pessoa totalmente diferente tivesse uma aparência idêntica a alguém que você amou? É engraçado pensar sobre isso porque sempre refletimos sobre o amor como algo abstrato e não físico, mas nos esquecemos o quanto há de ligação desse sentimento com a aparência física.

Almodóvar se inspirou no livro "Tarântula", do escritor francês Thierry Jonquet. O livro está classificado como um thriller de horror e narra de forma extremamente cruel os atos cometidos pelo cirurgião em sua vítima. O título do livro se refere ao nome pelo qual a vítima chama o seu sequestrador, o comparado-o com uma aranha tarântula devido as atrocidades pelas quais passa. Mas, para o filme, Almodóvar não faz uso de tais descrições que constam no livro. Afinal, no cinema, menos é mais. E ele consegue fazer isso de uma forma ao mesmo tempo sutil e extremamente provocativa. Primeiro somos apresentados a rotina do cirurgião e da mulher que ele mantem trancada. Na metade do filme é que é revelado o motivo de tal encarceramento. E essa explicação ocorre durante uma noite de sono que os dois dormem na mesma cama, numa espécie de sonho misturado com flashback. E quando voltamos ao tempo atual da trama, é justamente o momento em que o casal acorda no dia seguinte. Essa forma de montagem fornece um enorme requinte ao tom da narrativa do filme.  Porém, sem fugir das suas origens, mesmo se tratando de um suspense, a gente identifica que é um filme de Almodóvar, ou seja, os elementos característicos que o marcam tanto estão todos presentes: a questão materna; o sexo; a fotografia das suas cores; a música cantada; as piadinhas em momentos dramáticos; e tudo mais que povoa o universo de um diretor que imprimiu e imprime um estilo muito próprio.

O que mais me encanta no cinema deste diretor é a forma natural como ele lida com os mais variados tipos de relações que estão fora dos padrões convencionais. Basta olhar para a sua filmografia e perceber que em todos os seus filmes não existe uma relação convencional. Seus personagens possuem uma riquíssima complexidade que daria para fazer um filme a respeito de cada um deles. No entanto, ele prefere apenas ir pincelando-os e mostrando, para nós, meros espectadores, o suficiente para nossa compreensão durante uma hora ou mais. E por fim, nos deixando com uma forte sensação de que a vida de seus personagens continua mesmo depois que o filme termina.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Festival do Rio 2011



Esse ano quis ir bem devagar e tranquila para o Festival. Nada de comprar freneticamente tudo antecipado. E também preferi assistir filmes que provavelmente não entrarão em circuito ou irão demorar bastante para estrear. Além disso, também não quis ver nenhum filme falado em inglês. Enfim, coisa de cinéfila xiita e, ultimamente, bastante chata. Sendo assim, a minha cotação de filmes ficou da seguinte forma: "A Um Tiro de Pedra", "Mãe e Filha", "Triângulo Amoroso", "O Invasor", "O Abismo Prateado", "Michael". No entanto, destes, escrevi abaixo sobre aqueles que mais me chamaram atenção.

México: A UM TIRO DE PEDRA, de Sebastián Hiriart
Narra uma intrigante história sobre um pastor de cabras que vive num pequeno vilarejo no México. Um dia ele encontra um chaveiro com uma imagem e entende isso como um sinal para largar sua vida e viajar para o local indicado. A curiosa trilha sonora chama a atenção, pois, em alguns momentos é apresentada de uma maneira que se funde entre o contexto diegético e extradiegético da narrativa. Por exemplo, quando o personagem está próximo aos trilhos de um trem, ouvimos um som que nos remete a um apito somado as próprias rodas girando. No momento seguinte, percebemos que tal introdução sonora se revela como a trilha marcante que se repete ao longo do filme. "A um tiro de pedra" é uma expressão mexicana que significa algo do tipo "logo ali perto". Somente como curiosidade, essa mesma expressão também está presente na Bíblia, em Lucas cap. 22, que narra o momento que antecede a paixão de Cristo, ou seja, a Páscoa. E dentro do contexto bíblico ela também é usada para designar distância, que equivale algo entre 20 a 30 metros. A ironia do título está no fato de que a distância percorrida pelo personagem é imensamente maior que essa. No entanto, isso não faz com que ele desista do seu caminho. Ele o percorre de forma extremamente obsessiva, que inclusive é sobre isso que o filme fala. Nas palavras do próprio diretor: "O filme fala sobre as obsessões que temos que podem ser efêmeras e sem sentido, mas que dão sentido a nossa própria vida". Às vezes, sentimos que é preciso seguir por um caminho que não necessariamente irá nos levar àquilo que procuramos, mas o impulso de percorrê-lo é tão grande que ele em si transforma-se em uma verdadeira jornada sobre nós mesmos.

Brasil: MÃE E FILHA, de Petrus Cariry
O filme recebeu cinco prêmios no Cine Ceará deste ano, incluindo o de Melhor Filme. A linguagem estética do filme em alguns momentos lembra Lars Von Trier e em outros Tarkovisky. Os planos são longos e extremamente fotográficos e bem fotografados, função essa que também foi desempenhada pelo diretor. O tema da história é pesado. Após anos de separação, a filha retorna ao sertão onde nasceu para reencontrar a mãe. No entanto, ela leva consigo o seu filho morto para que a avó o abençoe. O lugar que sua mãe vive se assemelha a uma cidade fantasma. Parece não haver nenhum outro morador além dela. As casas estão destroçadas e destruídas. O que pode talvez significar uma metáfora para a relação das duas. O filme é narrado de forma bastante simbólica. A mãe prepara um certo ritual para o recebimento do seu neto morto. Em alguns momentos vemos a figura de homens vestidos de cangaceiros, que parecem representar uma espécie de anjos que vieram velar pela criança. Esse é o segundo longa de Petrus e ele, com certeza, se mostra como um promissor realizador do cinema brasileiro, pois lança um novo olhar ao nos apresentar um filme com uma nova e ousada proposta de linguagem estética.

Áustria: MICHAEL, de Markus Schleinzer
Quando comecei a ver Michael, reparei que algumas cenas me lembravam demais o estilo de Michael Haneke. Após a exibição do filme fui pesquisar sobre o diretor e descobri que Schleinzer já havia trabalhado com Haneke em dois filmes: "A Professora de Piano" e "A Fita Branca". Tá explicado então a influência dele em seu primeiro longa como diretor. O filme é simplesmente sensacional. Primeiro pela ousadia do tema escolhido. Trata-se da história de um homem que mantém no porão da sua casa um menino de dez anos que ele molesta sexualmente. A abertura do filme chama a atenção por mostrar logo de cara o que se passa na casa de Michael. Tudo é feito de forma muito natural e cotidiana, como se fosse um dia-a-dia normal na casa de qualquer família, afinal essa é a rotina estabelecida e que aparenta já durar alguns anos. O menino tem um quarto/cativeiro todo decorado e cheio de brinquedos. Com um banheiro adaptado e uma boa reserva de alimentos. É claro que ele não é feliz, mas parece já estar meio conformado com a situação em que vive. Schleinzer conseguiu lidar muito bem com um tema extremamente polêmico de forma habilidosa e satisfatória para os espectadores. Os planos e enquadramentos somados a uma montagem inteligente conseguem fazer com que saibamos exatamente tudo o que acontece ou vai acontecer, sem precisar mostrar aquilo que já sabemos. A cena final comprova isso de forma brilhante. Sem falar, que ele ainda conseguiu ter a coragem de fazer uma piadinha que funciona e se encaixa perfeitamente no contexto apresentado no filme.

E assim foi minha cotação do Festival desse ano. Vi pouca coisa, mas daquilo que vi, gostei bastante. E em meio a tantas exibições, morre, aos 63 anos, Leon Cakoff, fundador da Mostra de Cinema de São Paulo. Considerada também uma importantíssima janela para novos e inovadores olhares sobre o cinema produzido no mundo e no Brasil. Ele se foi, mas o seu legado e importância irão continuar por muitos e muitos anos enquanto houver cinema e pessoas querendo saboreá-lo e vivenciá-lo em toda grandeza e esplendor que ele pode oferecer.

sábado, 10 de setembro de 2011

A Árvore da Vida



De todas as formas de arte, considero o cinema como aquela que melhor pode tentar responder algumas das grandes questões da vida, tais como: De onde viemos? Pra onde vamos? E quem somos? Alguns cineastas, que tiveram tal ousadia, conseguiram transformar essas profundas indagações em linguagem cinematográfica, usando técnicas seja de roteiro, de estética das imagens ou, e principalmente, de montagem.

Fui assitir A Árvore da Vida cheia de expectativas, esperando um grande filme, cujas técnicas acima citadas estivessem presentes de forma surpreendentes e inovadoras. No entanto, ao terminar o filme fiquei bastante decepcionada. Vencedor da Palma de Ouro no festival de Cannes desse ano, a produção, dirigida por Terrence Malick não conseguiu me convencer. O roteiro consegue até ser cativante, mas não se sustenta com uma montagem que parece se perder em si mesma. Talvez porque ela tenha sido feita por cinco montadores diferentes, incluindo um brasileiro, Daniel Rezende. Realmente até entendi a intenção do filme como um todo, mas não entendi a intenção da montagem. Quando vamos para a época, digamos, atual, em que Sean Penn está, parece que o filme vai nos dizer algo importante, mas, depois vemos que não há nenhum objetivo por trás desse tipo de montagem. Aquilo que parece se propor simbólico, fica óbvio demais e o que parece ser claro, se transforma apenas em um grande cliché.

Quanto a estética das imagens e os efeitos visuais, o filme é realmente de uma beleza singular, tanto que nos remete a 2001, de Kubrick e ao Melancholia, de Von Trier. Inclusive pode-se dizer que a Árvore de Malick seria o antônimo deste último de Lars Von Trier, que também estava concorrendo em Cannes nesse mesmo ano. Isso porque o filme de Malick tem uma visão ocidentalizadamente católica demais sobre a vida e quanto para Von Trier não existe sequer um Deus e nem salvação, seja para o mundo ou para as pessoas. Um outro filme que também pode ser completamente o oposto deste de Malick é Tio Boonmee, ironicamente vencedor da Palma de Ouro do ano anterior. Este sim, nos apresenta através de uma visão realmente inovadora, um olhar sobre a a vida e a morte de uma forma muito mais lírica e tranquila e não tão doída e sofrível.

Malick é um cara extremamente recluso. Não dá entrevistas e fez poucos filmes durante sua carreira. É preciso lhe dar algum crédito em relação a isso, principalmente por estar inserido na indústria hollywoodiana. Ele, principalmente após a morte de Kubrick, é um dos raros diretores que consegue fazer um cinema mais experimental e totalmente fora dos padrões das produções americanas. Tal ousadia merece aplausos e respeito. No entanto, a sua Árvore não conseguiu me persuadir. Quem sabe na sua próxima tentativa, seja possível colher melhores frutos.

sábado, 6 de agosto de 2011

A Falta Que Nos Move



Christiane Jatahy é uma diretora de teatro que sempre demonstrou interesse por todo jogo de cena que existe entre o espectador e a encenação dos atores. Em suas peças, como "Corte Seco" (2009), por exemplo, ela editava o espetáculo ao vivo, dizendo para os atores quando deviam cortar a cena e ir para outra. Com isso, ela conseguiu estabelecer um diálogo entre a linguagem teatral e cinematográfica. E esse diálogo foi se tornando cada vez mais presente em suas peças ao ponto de sair dos palcos e ganhar uma versão na tela de cinema.

O filme mistura realidade e ficção o tempo todo. O processo de filmagem ocorreu durante treze horas ininterruptas utilizando três câmeras. Os cinco atores chegam em uma casa para preparar um jantar e aguardar um convidado que ninguém sabe quem é, ou se realmente irá chegar. Os diálogos são improvisados e as histórias contadas podem ser verdadeiras ou não. Algumas orientações são dadas para os atores através de mensagens de texto no celular. Em alguns momentos, a encenação é brechtinianamente desmascarada e é aí que Christiane consegue confundir ainda mais os espectadores. Será que as conversas que parecem totalmente espontâneas ou até mesmo pequenos acidentes, como quando uma das atrizes bate a cabeça e sangra, foram encenadas? Afinal, o título original da peça era "A Falta Que Nos Move ou Todas As Histórias São Ficção" (2005).

Os atores são Kiko Mascarenhas, Daniela Fortes, Marina Vianna, Cristina Amadeo e Pedro Brício. Eles passaram por cinco meses de ensaio até chegar o dia da filmagem. Cada ator recebeu um roteiro somente com orientações sobre sua atuação, ou seja, um não sabia qual era o roteiro do outro. Os seus personagens são eles mesmos e cada um com características muito bem definidas, que podem ter sido por orientação da diretora ou por se tratar de suas próprias. E é justamente isso que faz com que o filme se torne instigante, o jogo contínuo de nunca sabermos ao certo o que é real e o que é encenação.

E é curioso observarmos o fascínio que, nós espectadores e não atores (sera?) da vida, temos sobre o ser e o parecer ser. Apesar de considerar que o filme deve ter sido uma grande experiência para os atores e de ter levantado vários questionamentos sobre essa função que eles desempenham, ele me fez refletir também como essa tendência de reality está cada vez mais presente nas nossas vidas. Primeiro nos programas de TV e agora nas redes sociais. Todos sentem o desejo não só de verem a vida dos outros, como o de serem vistos também. De estarem sempre dizendo algo sobre suas vidas, de estarem sempre querendo parecer algo para alguém ou para si próprios. Tudo isso de Parecer, Aparecer e Ser fazem parte da nossa condição humana. E, ao mesmo tempo, que elas são tão distintas entre si, também estão intimamente ligadas para entrarmos no processo de descoberta de quem realmente somos.

A Falta Que Nos Move. Que falta é essa? Falta significa vazio, algo que nos torne incompletos, mas que de alguma forma já nos preencheu, pois sentimos falta. E só sentimos falta por algo que já tivemos. Ou não? Nos move pra onde? Pra onde queremos ir ou pra onde nos deixamos levar. Nos movemos saindo do lugar ou ficando parados. O pensamento nos move sem que saiamos do lugar. Enfim, ficção, realidade, encenação, mímica, desconstrução, desestruturação, reconstrução, linguagem, espontaneidade... Isso tudo faz parte da nossa vida, que encenada ou não, nos transforma, nos liberta e/ou nos aprisiona.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Meia Noite em Paris




Finalmente consegui retomar minhas idas ao cinema. Os contratempos externos e internos continuam (ô se continuam!), mas isso não deve ser justificativa de faltar com o meu prazer maior, que é a experiencia de ir ao cinema. Afinal, parafraseando a cantora pernambucana, Karina Buhr, o centro da terra puxa a gente, mas a gente pula contra a vontade do chão.

E quem me puxou de volta foi Woody Allen. Confesso que fui meio com o pé atrás, já que um filme protagonizado por Owen Wilson não me é lá muito convidativo. E até que Allen consegue extrair uma atuação razoável desse rapaz, afinal ele é só um diretor de cinema e não mágico. Ainda bem que o roteiro (também escrito por ele, claro) sustenta o filme, que narra a história de um protagonista nada satisfeito com a época atual que vive. A partir desse momento o filme me conquistou, pois me identifiquei com tal sentimento. Cada vez mais me sinto menos ligada ao mundo atual e todas as suas modernidades. Essa coisa toda de tecnologia touch, iPhone, iPad, TV's de LCD, LED, Plasma, Neutron, Plutônio e o escambau. Até mesmo o Windows Vista e o 7, eu odeio! Sem falar nessa febre doentia das redes sociais virtuais em que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Ahhhhhhh... quero voltar pra Idade Média ou então para os tempos áureos do cinema-mudo (Charlie Chaplin, meu ídolo-gênio de qualquer época!). Hoje em dia todo mundo fala demais sem ter nada pra dizer.

Voltando ao filme, o personagem de Owen é um roteirista de Hollywood que resolve mudar o rumo do seu trabalho e se dedicar em escrever um livro. Ele está prestes a se casar com a personagem de Rachel McAdams, no entanto, eles se mostram pessoas muito diferentes uma da outra, principalmente nesse momento de transição em que passa o personagem do Owen. Eles estão em Paris, juntamente com os pais da noiva, para comprar coisas para a nova casa que irão morar. No entanto, o sentimento nostálgico do protagonista o transporta, literalmente, de volta no tempo. Justamente para a época que ele mais admira, Paris nos anos 20. E realmente não é nada mal. Ele encontra com grandes escritores e artistas em geral, como Hemingway, Picasso, Cole Porter, entre outros. A cena em que ele senta à mesa com Dalí, Buñuel e Man Ray é sensacional! Pois, os diálogos fazem jus a turma surrealista. A breve atuação de Adrian Brody, como Dalí, é simplesmente perfeita.

Depois de vivenciar tudo isso, não tem como ele continuar sendo um roteirista de Hollywood e se casar com uma mulher com quem não tem a menor identificação. Só lhe resta largar tudo e ir viver em Paris. Começar uma nova vida na época em que vive mesmo, porém com um novo (ou velho) olhar. Infelizmente (ou felizmente) não podemos negar o presente e o momento que estamos passando. Temos que vivênciá-lo, mesmo que não estejamos completamente satisfeitos com ele. A boa (ou má) notícia é que o momento passa e se transforma, vira uma outra coisa. Como diz a escritora polonesa Wislawa Szymborska: "Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado".

domingo, 12 de junho de 2011

Dexter



[(Momento parêntese): A proposta do blog é falar sobre filmes que estão em cartaz nos cinemas, no entanto, por inúmeros motivos, não tenho praticado idas ao cinema há um tempo considerável. Sendo assim, resolvi abrir uma exceção e escrever sobre esse seriado de TV que me cativou completamente].

Trauma. Traumatismo. Segundo o dicionário, um de seus significados é um grande abalo físico, moral ou mental; choque ou transtorno de onde se desenvolveu ou se pode desenvolver uma neurose. Sendo um pouco mais específica, um trauma está ligado a uma situação extremamente violenta vivenciada por alguém, fazendo com que essa pessoa possa vir a ter variadas formas de reação, influenciando assim em seu comportamento psíquico e suas ações perante o mundo.

Dexter é o personagem-título de um seriado de sucesso nos EUA, que estreou em 2006 e que já vai para sua sexta temporada. A história de Dexter narra que ele passou por um forte trauma que o fez se tornar o que ele é hoje, um serial killer. Quando tinha três anos de idade, ele viu sua mãe ser assassinada e picotada com uma moto-serra. Até a sua idade adulta ele não se lembrava de tal fato. Devido a chocante cena, seu cérebro bloqueou o que ele havia testemunhado. No entanto, desde muito jovem Dexter sentia um impulso incontrolável para matar. O seu pai adotivo, que era policial, percebeu o impulso do filho e resolveu direcioná-lo para o "bem", ou seja, educou Dexter para que ele só matasse pessoas do "mal". Sendo assim, Dexter cresceu e trabalha para a polícia, como um especialista forense em análise de sangue, desvendando crimes cometidos por assassinos do mal. No entanto, alguns desses criminosos conseguem escapar da polícia, e é aí que Dexter ataca. Ele vai atrás desses bandidos e os mata, se tornando assim um assassino do bem(?).

Questões morais à parte, o seriado possui uma narrativa muito bem construída e a cada temporada vamos não só compreendendo a complexidade psíquica de Dexter, como acabamos nos identificando com ele. Isso é simplesmente incrível, pois comprova o sucesso de um roteiro muito bem escrito e de um personagem brilhantemente construído, não esquecendo de mencionar a excelente atuação de Michael C. Hall, que ficou conhecido por outra série, também excelente e ligada a mortes, Six Feet Under (A Sete Palmos). Não que esse tema já não tenho sido retratado antes. Na história do cinema já houveram vários filmes sobre serial killers: Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, Kalifornia, de Dominic Sena e Violência Gratuita, de Michael Haneke. Porém, diferente dos filmes, o seriado consegue ir mais a fundo na mente de um personagem extremamente complexo. Os assassinos em série matam não movidos por sentimentos de justiça, vingança e nem por questões políticas ou por aquilo que acreditam ser o correto. Eles matam porque precisam saciar seus incontroláveis impulsos que os levam a matar. Não há uma justificativa moral para isso. No entanto, Dexter se apresenta como o primeiro serial killer moralista, uma vez que segue determinados códigos e só mata bandidos. No entanto, o seriado não levanta tanto essa questão. O foco está voltado mais para o funcionamento da mente do protagonista e como ele lida com seus traumas, relações sociais, familiares e a sua habilidade maior que é matar.

A série é baseada no livro de Jeff Lindsay, "Darkly Dreaming Dexter", que no Brasil tem a tradução de "A Mão Esquerda de Deus". Lindsay é casado com a sobrinha do escritor Ernest Hemingway, Hilary Hemingway, que quase sempre assina como co-autora de seus livros, mas não no caso de Dexter. O livro teve uma indicação ao Edgar Award, uma premiação, organizada pelos Mystery Writes of America que foi fundada em 1945 por escritores de romances de mistério. Para a adaptação na TV, somente a primeira temporada tem ligação com o livro, as demais que se seguiram são histórias originais. Algumas são melhores que outras. Considero a primeira temporada (Ice Truck Killer) e a quarta (Trinity) as melhores, pois possuem finais surpreendentes e de tirar o fôlego. Porém, de forma geral, o roteiro é realmente o ponto forte da série, pois consegue fazer com que os espectadores torçam para que seu sanguinário protagonista nunca seja descoberto e continue matando livremente. E que venha a sexta temporada!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas



Produção tailandesa vencedora da Palma de Ouro em Cannes de Melhor Filme em 2010. Foi isso o que me atraiu para ir assistir Tio Boonmee. O diretor possui um nome impronunciável, Apichatpong Weerasethakul, e por isso, ele mesmo se apelidou de Joe.

Esse foi o primeiro filme de Joe que assiti, não conheço os seus outros filmes, portanto, não sei qual é o estilo do diretor e nem qual é o tipo de abordagem que ele procura expressar. Enfim, fui totalmente crua ao cinema, porém com uma enorme curiosidade. Afinal, um filme que ganha a Palma de Ouro em Cannes merece todo o respeito.

A história do filme é baseada em um livro escrito na década de 80, chamado A Man Who Can Recall His Past Lives (Um Homem Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas). Escrito por um monge budista, Phra Sripariyattiweti, a obra narra a história de Boonmee, um homem que dizia se recordar das suas vidas passadas durante a meditação.

Para o filme, o diretor tailandês mostra o Boonmee como um homem que sofre de insuficiência renal e resolve viver o resto dos seus dias em sua casa no campo. A sua cunhada e sobrinho o acompanham para ajudá-lo.

Numa noite em que todos estão jantando a mesa, surge o espírito da sua mulher e, em seguida, aparece um ser peludo e de olhos vermelhos reluzentes que se identifica como seu filho, que estava perdido há anos. A partir daí o filme ganha um ar místico e fantasioso, contudo, sem perder a seriedade. Talvez fique difícil para nós, espectadores ocidentais, compreendermos uma lógica no contexto da história, mas para a cultura oriental, a questão espiritual é algo que faz parte da história e religião deles. O processo de reencarnação, karma e toda a filosofia budista estão de forma muito natural no filme. No entanto, esses elementos culturais/religiosos não interferem na forma e no que o filme representa dentro do universo cinematográfico.

Joe faz várias referências de diretores como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni. Por exemplo, quando o filho de Boonmee conta que ficava fotografando pela floresta e ao revelar os filmes viu que em uma das fotos aparecia uma criatura peluda e de olhos vermelhos. Ele ficou obcecado por aquela imagem e foi persegui-la até descobrir o que era. Essa cena nos lembra, nitidamente, o filme "Blow Up", de Antonioni, no qual ele nos diz que, em determinadas situações, a câmera consegue enxergar mais do que os nossos próprios olhos. Isso, inclusive, vale principalmente para a cena final do filme de Joe.

O diretor tailandês consegue nos hipnotizar e nos fazer compreender que tudo o que vemos na tela é crível, sim. Isso porque, somente o cinema tem a capacidade de provocar essa sensação. A projeção das suas imagens nos faz submergir a uma determinada veracidade simbólica que é inerente ao próprio cinema. Prova disso é que desde o seu surgimento, quando a imagem de um trem chegando à estação foi exibida pela primeira vez, em 1895, as pessoas saíram da frente, porque realmente acreditaram que o trem atravessaria a sala. Isso significa que a história contada no cinema é sempre verdadeira dentro do seu próprio contexto, mesmo que ela seja fantasiosa. Afinal, é esse o pacto que é estabelecido (e que foi, no decorrer dos anos, cada vez mais aprimorado) entre nossas mentes e as imagens que estamos vendo.

Tio Boonmee consegue, de forma simples, sutil e mística provar que a arte de fazer cinema é ilimitada, poeticamente, narrativamente e interpretativamente. E, acredito que foi por isso que Cannes o premiou com a Palma de Ouro. Pois ele é uma homenagem ao próprio cinema!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Scott Pilgrim Contra o Mundo



Brian O'Malley é um cartunista canadense que em 2004 criou uma história em quadrinhos cujo personagem-título é Scott Pilgrim, um menino de 22 anos que vive em Toronto. Ele é baixista em uma banda formada por dois amigos chamada Sex Bob-omb e divide um apartamento com outro amigo que é gay. Sua vida corre de maneira regular até o momento em que se apaixona por Ramona, uma menina nova na cidade. Por enquanto, nada de extraordinário nessa história. No entanto, para sair com Ramona, ele precisa derrotar seus 7 ex-namorados malignos. A partir daí, Brian consegue misturar o cotidiano normal em uma verdadeira aventura de vídeo-game. A cada luta vencida por Scott faz com que ele ganhe pontos e até mesmo "uma vida" (em linguagem de vídeo-game).

A adptação dos quadrinhos para o filme Scott Pilgrim Contra o Mundo, ficou por conta de Edgar Wright, que trabalhou com Tarantino e Robert Rodriguez em "Planeta Terror" (Grindhouse - 2007). O roteiro do filme segue a linha dos quadrinhos de O'Malley e criam uma atmosfera extremamente bem humorada, com diálogos inteligentes e extremamente divertidos. As passagens de cenas do filme chamam a atenção. As elipses ocorrem em cortes secos e de uma maneira muito bem montada e filmada. Os continuistas do filme, com certeza, tiveram muito trabalho!

E a escolha para o personagem de Scott não poderia ser melhor. Michael Cera é simplesmente incrível! Esse jovem ator já demonstrava ter um estilo muito próprio, desde a época em que fazia o seriado "Arrested Development". Com seu rosto delicado e um jeito meio sonso de ser, ele conquista e chama a atenção de uma forma sutil e bem humorada. Aliás, todo o elenco do filme é muito bom, e ainda conta com outros excelentes jovens atores, como Kieran Culkin, Jason Schwartzman e toda uma safra nova não muito conhecida, no entanto, não menos talentosos.

Os efeitos visuais do filme também garantem a diversão. Isso porque eles são usados em momentos do dia-a-dia, por exemplo, quando o telefone toca ou a campainha. E aparecem de forma completa nos momentos dos confrontos de Scott com os ex-namorados de Ramona, simulando um verdadeiro jogo de vídeo-game. O filme todo tem um tom extremamente de ironia e sarcasmo. O meu momento favorito é quando Scott tem que enfrentar Todd. O ex-namorado, que também é baixista e namora a sua ex-namorada. Além do fato da luta ser ainda mais pessoal, o super poder de Todd é justificado pelo fato dele ser vegan, ou seja, é aquele vegetariano radical, que não come ovo, queijo, nem nada de origem animal, ou como ele mesmo diz "nada que tenha um rosto". E é justamente por isso que ele é melhor que os outros. Ele é um ser superior e com super poderes místicos.

Somando tudo isso e mais uma trilha sonora super bacana, o filme agrada não só aos adolescentes como a uma boa leva de adultos. E vai agradar, principalmente, a todos que curtem um bom jogo de vídeo-game, ler histórias em quadrinhos ou simplesmente gostam de ir ao cinema e ver um filme inteligente, divertido e que te faça rir despretensiosamente.