quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas



Produção tailandesa vencedora da Palma de Ouro em Cannes de Melhor Filme em 2010. Foi isso o que me atraiu para ir assistir Tio Boonmee. O diretor possui um nome impronunciável, Apichatpong Weerasethakul, e por isso, ele mesmo se apelidou de Joe.

Esse foi o primeiro filme de Joe que assiti, não conheço os seus outros filmes, portanto, não sei qual é o estilo do diretor e nem qual é o tipo de abordagem que ele procura expressar. Enfim, fui totalmente crua ao cinema, porém com uma enorme curiosidade. Afinal, um filme que ganha a Palma de Ouro em Cannes merece todo o respeito.

A história do filme é baseada em um livro escrito na década de 80, chamado A Man Who Can Recall His Past Lives (Um Homem Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas). Escrito por um monge budista, Phra Sripariyattiweti, a obra narra a história de Boonmee, um homem que dizia se recordar das suas vidas passadas durante a meditação.

Para o filme, o diretor tailandês mostra o Boonmee como um homem que sofre de insuficiência renal e resolve viver o resto dos seus dias em sua casa no campo. A sua cunhada e sobrinho o acompanham para ajudá-lo.

Numa noite em que todos estão jantando a mesa, surge o espírito da sua mulher e, em seguida, aparece um ser peludo e de olhos vermelhos reluzentes que se identifica como seu filho, que estava perdido há anos. A partir daí o filme ganha um ar místico e fantasioso, contudo, sem perder a seriedade. Talvez fique difícil para nós, espectadores ocidentais, compreendermos uma lógica no contexto da história, mas para a cultura oriental, a questão espiritual é algo que faz parte da história e religião deles. O processo de reencarnação, karma e toda a filosofia budista estão de forma muito natural no filme. No entanto, esses elementos culturais/religiosos não interferem na forma e no que o filme representa dentro do universo cinematográfico.

Joe faz várias referências de diretores como Luis Buñuel e Michelangelo Antonioni. Por exemplo, quando o filho de Boonmee conta que ficava fotografando pela floresta e ao revelar os filmes viu que em uma das fotos aparecia uma criatura peluda e de olhos vermelhos. Ele ficou obcecado por aquela imagem e foi persegui-la até descobrir o que era. Essa cena nos lembra, nitidamente, o filme "Blow Up", de Antonioni, no qual ele nos diz que, em determinadas situações, a câmera consegue enxergar mais do que os nossos próprios olhos. Isso, inclusive, vale principalmente para a cena final do filme de Joe.

O diretor tailandês consegue nos hipnotizar e nos fazer compreender que tudo o que vemos na tela é crível, sim. Isso porque, somente o cinema tem a capacidade de provocar essa sensação. A projeção das suas imagens nos faz submergir a uma determinada veracidade simbólica que é inerente ao próprio cinema. Prova disso é que desde o seu surgimento, quando a imagem de um trem chegando à estação foi exibida pela primeira vez, em 1895, as pessoas saíram da frente, porque realmente acreditaram que o trem atravessaria a sala. Isso significa que a história contada no cinema é sempre verdadeira dentro do seu próprio contexto, mesmo que ela seja fantasiosa. Afinal, é esse o pacto que é estabelecido (e que foi, no decorrer dos anos, cada vez mais aprimorado) entre nossas mentes e as imagens que estamos vendo.

Tio Boonmee consegue, de forma simples, sutil e mística provar que a arte de fazer cinema é ilimitada, poeticamente, narrativamente e interpretativamente. E, acredito que foi por isso que Cannes o premiou com a Palma de Ouro. Pois ele é uma homenagem ao próprio cinema!