quarta-feira, 29 de junho de 2011

Meia Noite em Paris




Finalmente consegui retomar minhas idas ao cinema. Os contratempos externos e internos continuam (ô se continuam!), mas isso não deve ser justificativa de faltar com o meu prazer maior, que é a experiencia de ir ao cinema. Afinal, parafraseando a cantora pernambucana, Karina Buhr, o centro da terra puxa a gente, mas a gente pula contra a vontade do chão.

E quem me puxou de volta foi Woody Allen. Confesso que fui meio com o pé atrás, já que um filme protagonizado por Owen Wilson não me é lá muito convidativo. E até que Allen consegue extrair uma atuação razoável desse rapaz, afinal ele é só um diretor de cinema e não mágico. Ainda bem que o roteiro (também escrito por ele, claro) sustenta o filme, que narra a história de um protagonista nada satisfeito com a época atual que vive. A partir desse momento o filme me conquistou, pois me identifiquei com tal sentimento. Cada vez mais me sinto menos ligada ao mundo atual e todas as suas modernidades. Essa coisa toda de tecnologia touch, iPhone, iPad, TV's de LCD, LED, Plasma, Neutron, Plutônio e o escambau. Até mesmo o Windows Vista e o 7, eu odeio! Sem falar nessa febre doentia das redes sociais virtuais em que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Ahhhhhhh... quero voltar pra Idade Média ou então para os tempos áureos do cinema-mudo (Charlie Chaplin, meu ídolo-gênio de qualquer época!). Hoje em dia todo mundo fala demais sem ter nada pra dizer.

Voltando ao filme, o personagem de Owen é um roteirista de Hollywood que resolve mudar o rumo do seu trabalho e se dedicar em escrever um livro. Ele está prestes a se casar com a personagem de Rachel McAdams, no entanto, eles se mostram pessoas muito diferentes uma da outra, principalmente nesse momento de transição em que passa o personagem do Owen. Eles estão em Paris, juntamente com os pais da noiva, para comprar coisas para a nova casa que irão morar. No entanto, o sentimento nostálgico do protagonista o transporta, literalmente, de volta no tempo. Justamente para a época que ele mais admira, Paris nos anos 20. E realmente não é nada mal. Ele encontra com grandes escritores e artistas em geral, como Hemingway, Picasso, Cole Porter, entre outros. A cena em que ele senta à mesa com Dalí, Buñuel e Man Ray é sensacional! Pois, os diálogos fazem jus a turma surrealista. A breve atuação de Adrian Brody, como Dalí, é simplesmente perfeita.

Depois de vivenciar tudo isso, não tem como ele continuar sendo um roteirista de Hollywood e se casar com uma mulher com quem não tem a menor identificação. Só lhe resta largar tudo e ir viver em Paris. Começar uma nova vida na época em que vive mesmo, porém com um novo (ou velho) olhar. Infelizmente (ou felizmente) não podemos negar o presente e o momento que estamos passando. Temos que vivênciá-lo, mesmo que não estejamos completamente satisfeitos com ele. A boa (ou má) notícia é que o momento passa e se transforma, vira uma outra coisa. Como diz a escritora polonesa Wislawa Szymborska: "Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já pertence ao passado".

domingo, 12 de junho de 2011

Dexter



[(Momento parêntese): A proposta do blog é falar sobre filmes que estão em cartaz nos cinemas, no entanto, por inúmeros motivos, não tenho praticado idas ao cinema há um tempo considerável. Sendo assim, resolvi abrir uma exceção e escrever sobre esse seriado de TV que me cativou completamente].

Trauma. Traumatismo. Segundo o dicionário, um de seus significados é um grande abalo físico, moral ou mental; choque ou transtorno de onde se desenvolveu ou se pode desenvolver uma neurose. Sendo um pouco mais específica, um trauma está ligado a uma situação extremamente violenta vivenciada por alguém, fazendo com que essa pessoa possa vir a ter variadas formas de reação, influenciando assim em seu comportamento psíquico e suas ações perante o mundo.

Dexter é o personagem-título de um seriado de sucesso nos EUA, que estreou em 2006 e que já vai para sua sexta temporada. A história de Dexter narra que ele passou por um forte trauma que o fez se tornar o que ele é hoje, um serial killer. Quando tinha três anos de idade, ele viu sua mãe ser assassinada e picotada com uma moto-serra. Até a sua idade adulta ele não se lembrava de tal fato. Devido a chocante cena, seu cérebro bloqueou o que ele havia testemunhado. No entanto, desde muito jovem Dexter sentia um impulso incontrolável para matar. O seu pai adotivo, que era policial, percebeu o impulso do filho e resolveu direcioná-lo para o "bem", ou seja, educou Dexter para que ele só matasse pessoas do "mal". Sendo assim, Dexter cresceu e trabalha para a polícia, como um especialista forense em análise de sangue, desvendando crimes cometidos por assassinos do mal. No entanto, alguns desses criminosos conseguem escapar da polícia, e é aí que Dexter ataca. Ele vai atrás desses bandidos e os mata, se tornando assim um assassino do bem(?).

Questões morais à parte, o seriado possui uma narrativa muito bem construída e a cada temporada vamos não só compreendendo a complexidade psíquica de Dexter, como acabamos nos identificando com ele. Isso é simplesmente incrível, pois comprova o sucesso de um roteiro muito bem escrito e de um personagem brilhantemente construído, não esquecendo de mencionar a excelente atuação de Michael C. Hall, que ficou conhecido por outra série, também excelente e ligada a mortes, Six Feet Under (A Sete Palmos). Não que esse tema já não tenho sido retratado antes. Na história do cinema já houveram vários filmes sobre serial killers: Assassinos por Natureza, de Oliver Stone, Kalifornia, de Dominic Sena e Violência Gratuita, de Michael Haneke. Porém, diferente dos filmes, o seriado consegue ir mais a fundo na mente de um personagem extremamente complexo. Os assassinos em série matam não movidos por sentimentos de justiça, vingança e nem por questões políticas ou por aquilo que acreditam ser o correto. Eles matam porque precisam saciar seus incontroláveis impulsos que os levam a matar. Não há uma justificativa moral para isso. No entanto, Dexter se apresenta como o primeiro serial killer moralista, uma vez que segue determinados códigos e só mata bandidos. No entanto, o seriado não levanta tanto essa questão. O foco está voltado mais para o funcionamento da mente do protagonista e como ele lida com seus traumas, relações sociais, familiares e a sua habilidade maior que é matar.

A série é baseada no livro de Jeff Lindsay, "Darkly Dreaming Dexter", que no Brasil tem a tradução de "A Mão Esquerda de Deus". Lindsay é casado com a sobrinha do escritor Ernest Hemingway, Hilary Hemingway, que quase sempre assina como co-autora de seus livros, mas não no caso de Dexter. O livro teve uma indicação ao Edgar Award, uma premiação, organizada pelos Mystery Writes of America que foi fundada em 1945 por escritores de romances de mistério. Para a adaptação na TV, somente a primeira temporada tem ligação com o livro, as demais que se seguiram são histórias originais. Algumas são melhores que outras. Considero a primeira temporada (Ice Truck Killer) e a quarta (Trinity) as melhores, pois possuem finais surpreendentes e de tirar o fôlego. Porém, de forma geral, o roteiro é realmente o ponto forte da série, pois consegue fazer com que os espectadores torçam para que seu sanguinário protagonista nunca seja descoberto e continue matando livremente. E que venha a sexta temporada!