sábado, 6 de agosto de 2011

A Falta Que Nos Move



Christiane Jatahy é uma diretora de teatro que sempre demonstrou interesse por todo jogo de cena que existe entre o espectador e a encenação dos atores. Em suas peças, como "Corte Seco" (2009), por exemplo, ela editava o espetáculo ao vivo, dizendo para os atores quando deviam cortar a cena e ir para outra. Com isso, ela conseguiu estabelecer um diálogo entre a linguagem teatral e cinematográfica. E esse diálogo foi se tornando cada vez mais presente em suas peças ao ponto de sair dos palcos e ganhar uma versão na tela de cinema.

O filme mistura realidade e ficção o tempo todo. O processo de filmagem ocorreu durante treze horas ininterruptas utilizando três câmeras. Os cinco atores chegam em uma casa para preparar um jantar e aguardar um convidado que ninguém sabe quem é, ou se realmente irá chegar. Os diálogos são improvisados e as histórias contadas podem ser verdadeiras ou não. Algumas orientações são dadas para os atores através de mensagens de texto no celular. Em alguns momentos, a encenação é brechtinianamente desmascarada e é aí que Christiane consegue confundir ainda mais os espectadores. Será que as conversas que parecem totalmente espontâneas ou até mesmo pequenos acidentes, como quando uma das atrizes bate a cabeça e sangra, foram encenadas? Afinal, o título original da peça era "A Falta Que Nos Move ou Todas As Histórias São Ficção" (2005).

Os atores são Kiko Mascarenhas, Daniela Fortes, Marina Vianna, Cristina Amadeo e Pedro Brício. Eles passaram por cinco meses de ensaio até chegar o dia da filmagem. Cada ator recebeu um roteiro somente com orientações sobre sua atuação, ou seja, um não sabia qual era o roteiro do outro. Os seus personagens são eles mesmos e cada um com características muito bem definidas, que podem ter sido por orientação da diretora ou por se tratar de suas próprias. E é justamente isso que faz com que o filme se torne instigante, o jogo contínuo de nunca sabermos ao certo o que é real e o que é encenação.

E é curioso observarmos o fascínio que, nós espectadores e não atores (sera?) da vida, temos sobre o ser e o parecer ser. Apesar de considerar que o filme deve ter sido uma grande experiência para os atores e de ter levantado vários questionamentos sobre essa função que eles desempenham, ele me fez refletir também como essa tendência de reality está cada vez mais presente nas nossas vidas. Primeiro nos programas de TV e agora nas redes sociais. Todos sentem o desejo não só de verem a vida dos outros, como o de serem vistos também. De estarem sempre dizendo algo sobre suas vidas, de estarem sempre querendo parecer algo para alguém ou para si próprios. Tudo isso de Parecer, Aparecer e Ser fazem parte da nossa condição humana. E, ao mesmo tempo, que elas são tão distintas entre si, também estão intimamente ligadas para entrarmos no processo de descoberta de quem realmente somos.

A Falta Que Nos Move. Que falta é essa? Falta significa vazio, algo que nos torne incompletos, mas que de alguma forma já nos preencheu, pois sentimos falta. E só sentimos falta por algo que já tivemos. Ou não? Nos move pra onde? Pra onde queremos ir ou pra onde nos deixamos levar. Nos movemos saindo do lugar ou ficando parados. O pensamento nos move sem que saiamos do lugar. Enfim, ficção, realidade, encenação, mímica, desconstrução, desestruturação, reconstrução, linguagem, espontaneidade... Isso tudo faz parte da nossa vida, que encenada ou não, nos transforma, nos liberta e/ou nos aprisiona.