terça-feira, 18 de outubro de 2011

Festival do Rio 2011



Esse ano quis ir bem devagar e tranquila para o Festival. Nada de comprar freneticamente tudo antecipado. E também preferi assistir filmes que provavelmente não entrarão em circuito ou irão demorar bastante para estrear. Além disso, também não quis ver nenhum filme falado em inglês. Enfim, coisa de cinéfila xiita e, ultimamente, bastante chata. Sendo assim, a minha cotação de filmes ficou da seguinte forma: "A Um Tiro de Pedra", "Mãe e Filha", "Triângulo Amoroso", "O Invasor", "O Abismo Prateado", "Michael". No entanto, destes, escrevi abaixo sobre aqueles que mais me chamaram atenção.

México: A UM TIRO DE PEDRA, de Sebastián Hiriart
Narra uma intrigante história sobre um pastor de cabras que vive num pequeno vilarejo no México. Um dia ele encontra um chaveiro com uma imagem e entende isso como um sinal para largar sua vida e viajar para o local indicado. A curiosa trilha sonora chama a atenção, pois, em alguns momentos é apresentada de uma maneira que se funde entre o contexto diegético e extradiegético da narrativa. Por exemplo, quando o personagem está próximo aos trilhos de um trem, ouvimos um som que nos remete a um apito somado as próprias rodas girando. No momento seguinte, percebemos que tal introdução sonora se revela como a trilha marcante que se repete ao longo do filme. "A um tiro de pedra" é uma expressão mexicana que significa algo do tipo "logo ali perto". Somente como curiosidade, essa mesma expressão também está presente na Bíblia, em Lucas cap. 22, que narra o momento que antecede a paixão de Cristo, ou seja, a Páscoa. E dentro do contexto bíblico ela também é usada para designar distância, que equivale algo entre 20 a 30 metros. A ironia do título está no fato de que a distância percorrida pelo personagem é imensamente maior que essa. No entanto, isso não faz com que ele desista do seu caminho. Ele o percorre de forma extremamente obsessiva, que inclusive é sobre isso que o filme fala. Nas palavras do próprio diretor: "O filme fala sobre as obsessões que temos que podem ser efêmeras e sem sentido, mas que dão sentido a nossa própria vida". Às vezes, sentimos que é preciso seguir por um caminho que não necessariamente irá nos levar àquilo que procuramos, mas o impulso de percorrê-lo é tão grande que ele em si transforma-se em uma verdadeira jornada sobre nós mesmos.

Brasil: MÃE E FILHA, de Petrus Cariry
O filme recebeu cinco prêmios no Cine Ceará deste ano, incluindo o de Melhor Filme. A linguagem estética do filme em alguns momentos lembra Lars Von Trier e em outros Tarkovisky. Os planos são longos e extremamente fotográficos e bem fotografados, função essa que também foi desempenhada pelo diretor. O tema da história é pesado. Após anos de separação, a filha retorna ao sertão onde nasceu para reencontrar a mãe. No entanto, ela leva consigo o seu filho morto para que a avó o abençoe. O lugar que sua mãe vive se assemelha a uma cidade fantasma. Parece não haver nenhum outro morador além dela. As casas estão destroçadas e destruídas. O que pode talvez significar uma metáfora para a relação das duas. O filme é narrado de forma bastante simbólica. A mãe prepara um certo ritual para o recebimento do seu neto morto. Em alguns momentos vemos a figura de homens vestidos de cangaceiros, que parecem representar uma espécie de anjos que vieram velar pela criança. Esse é o segundo longa de Petrus e ele, com certeza, se mostra como um promissor realizador do cinema brasileiro, pois lança um novo olhar ao nos apresentar um filme com uma nova e ousada proposta de linguagem estética.

Áustria: MICHAEL, de Markus Schleinzer
Quando comecei a ver Michael, reparei que algumas cenas me lembravam demais o estilo de Michael Haneke. Após a exibição do filme fui pesquisar sobre o diretor e descobri que Schleinzer já havia trabalhado com Haneke em dois filmes: "A Professora de Piano" e "A Fita Branca". Tá explicado então a influência dele em seu primeiro longa como diretor. O filme é simplesmente sensacional. Primeiro pela ousadia do tema escolhido. Trata-se da história de um homem que mantém no porão da sua casa um menino de dez anos que ele molesta sexualmente. A abertura do filme chama a atenção por mostrar logo de cara o que se passa na casa de Michael. Tudo é feito de forma muito natural e cotidiana, como se fosse um dia-a-dia normal na casa de qualquer família, afinal essa é a rotina estabelecida e que aparenta já durar alguns anos. O menino tem um quarto/cativeiro todo decorado e cheio de brinquedos. Com um banheiro adaptado e uma boa reserva de alimentos. É claro que ele não é feliz, mas parece já estar meio conformado com a situação em que vive. Schleinzer conseguiu lidar muito bem com um tema extremamente polêmico de forma habilidosa e satisfatória para os espectadores. Os planos e enquadramentos somados a uma montagem inteligente conseguem fazer com que saibamos exatamente tudo o que acontece ou vai acontecer, sem precisar mostrar aquilo que já sabemos. A cena final comprova isso de forma brilhante. Sem falar, que ele ainda conseguiu ter a coragem de fazer uma piadinha que funciona e se encaixa perfeitamente no contexto apresentado no filme.

E assim foi minha cotação do Festival desse ano. Vi pouca coisa, mas daquilo que vi, gostei bastante. E em meio a tantas exibições, morre, aos 63 anos, Leon Cakoff, fundador da Mostra de Cinema de São Paulo. Considerada também uma importantíssima janela para novos e inovadores olhares sobre o cinema produzido no mundo e no Brasil. Ele se foi, mas o seu legado e importância irão continuar por muitos e muitos anos enquanto houver cinema e pessoas querendo saboreá-lo e vivenciá-lo em toda grandeza e esplendor que ele pode oferecer.