segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Som ao Redor


Kleber Mendonça Filho finalmente estreia seu primeiro longa de ficção. O diretor e roteirista, que também foi crítico de cinema, ficou conhecido pelos seus premiados curtas como “Vinil Verde” (2004) e “Recife Frio” (2009) [quem quiser assitir, está diponível no Porta Curtas]. E não poderia ter sido uma estreia melhor; o longa é vencedor de importantes prêmios em diversos festivais no Brasil e no mundo. Além de ter sido listado pelo The New York Times como um dos 10 melhores filmes de 2012 ao lado de diretores como Tarantino, Spielberg e Haneke.

O filme começa com uma série de fotos em preto e branco de pessoas que parecem ser de uma área rural. Em seguida vemos uma criança andando de patins dentro de um condomínio de prédios residenciais. A partir daí somos apresentados aos moradores de um bairro de classe média do Recife/PE. A narrativa nos leva para dentro dos apartamentos e cotidiano dos diferentes habitantes que ali residem. Contudo, o que realmente interessa nas imagens e na montagem é aquilo que se sobressai nas entrelinhas, no espaço sonoro e visual do que se ouve e se vê na tela, principalmente diante do que não esteja ali explicitado. Com o uso de uma trilha sonora marcante e de forma crescente em relação à narrativa, temos a constante sensação de que sempre há algo por trás das imagens aparentemente inocentes. Remete-se bastante ao estilo de montagem de Stanley Kubrick. Inclusive na cena da cachoeira, há um momento em que mostra um dos personagens se banhando em sangue, o que parece sublinhar ainda mais a referência de Kleber com Kubrick.

Os atores atuam de uma forma extremamente natural e tranquila. É claro que esse ar de tranquilidade fica por conta, em boa parte, do relaxado sotaque pernambucano. Acompanhamos as variadas famílias do bairro e vamos conhecendo a rotina de cada uma, como por exemplo, a família da dona-de-casa, casada, com dois filhos e que não dorme porque o cachorro do vizinho não para de latir. E também a família daquele que é o proprietário de vários prédios do bairro. Além dos personagens existentes em quase todas áreas residenciais: o lavador de carros, o entregador de água, vizinhos, crianças, empregadas domésticas etc. Tudo parece muito normal e costumeiro, até que surge uma equipe de segurança oferecendo uma espécie de guarda e vigília pelas redondezas. Equipe essa que é liderada pelo ator Irandhir Santos, cujo personagem parece não conquistar muito a confiança justamente dos membros da família detentora de mais recursos financeiros da região. O motivo se deve ao fato de que um dos membros dessa família é uma espécie de adolescente-problema causador de alguns aborrecimentos já conhecidos pelas ruas do bairro. Assim, percebemos que há uma certa hierarquia entre os habitantes, tanto que a equipe de segurança precisa pedir autorização àquele que é tido como o patriarca da área, para que possam realizar seu trabalho. Neste momento o filme ressalta o quanto ainda convivemos dentro de em um sistema feudal velado até os dias de hoje, porém, agora composto por prédios englobados em grandes complexos de condomínios. A cena final reforça tal alusão ao revelar a conexão existente com as fotos em preto e branco mostradas no início. 

Kleber consegue fazer um filme de minúcias, em que o complemento do que acontece na tela ocorre fora dela, no chamado extracampo, um conceito de linguagem cinematográfica que se volta para o espectador da imagem fílmica. Onde tudo que ocorre está no processo inconsciente da leitura que fazemos dentro de um contexto narrativo presente naquilo que não está declaradamente exposto. Assim como internalizamos as imagens que não vemos, o mesmo ocorre com os sons inaudíveis e metafóricos, por exemplo, em um silêncio que é mais assustador que um grito, ou fogos de artifício que simulam tiros de uma arma. Tudo isso faz parte do que podemos, como disse Deleuze, pensar sobre a potência invisível presente nos filmes. E “O Som ao Redor” se expressa de uma forma a não subestimar a inteligência de seus espectadores, ao saber explorar a vastidão dos recursos da arte cinematográfica com um requinte de obras de grandes diretores e com a originalidade de ser brasileiro.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mia


O filme escrito e dirigido pelo ator argentino Javier Van de Couter, foi exibido no 20º Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, que acontece todo ano em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo que levou, este ano, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A produção também recebeu o prêmio de Melhor Direção no 30º Festival Internacional de Cinema de Havana.

A personagem-título do filme não está presente de forma visível. O que sabemos dela está contido nas suas próprias palavras que são lidas, inicialmente, por Ale, um travesti que trabalha catando papelões nas ruas de Buenos Aires. Ale recolhe uma caixa jogada no lixo e nela encontra um diário e outros itens que pertenciam a Mia. A partir daí, ela passa a se envolver de uma maneira extremamente emocional com a vida que está ali relatada pela sua autora. Ao mesmo tempo, também nos é apresentado o contexto de vida de Ale, que mora em uma espécie de favela/comunidade, chamada Aldeia Rosa, onde vivem ali vários outros travestis. Além disso, notamos também a presença de uma pequena equipe de cinema que perambula pelas redondezas da favela. Eles conversam com os moradores a respeito de um documentário que pretendem fazer. Percebemos assim, que o filme, em alguns momentos, se mistura ao próprio documentário que está inserido na sua narrativa ficcional. Mesmo sabendo que o documentário faz parte da ficção, é interessante observar como a própria narrativa se questiona. Não só pelo fato de que os personagens travestis, realmente o são, nos dando assim uma impressão bastante real em relação aos sentimentos por eles expressados. Como também pelo fato de que descobrimos, quando sobem os créditos finais, que a tal Aldeia Rosa realmente existiu e foi dizimada pelo governo argentino, em 1997.

Em paralelo a questão social e humana dos travestis, conhecemos a história de Mia, que nos é apresentada através do que ela própria escreveu em seu diário pessoal. Ao ler suas palavras, Ale parece ser a única a compreendê-la e não julgá-la pelas atitudes e pensamentos que teve em relação a sua família. Principalmente no que diz respeito a sua pequena filha, Julia, que convive de forma bastante difícil com o pai, vivido por Rodrigo de La Serna (companheiro do jovem Che Guevara, em “Diários de Motocicleta”, 2004). Ele não consegue lidar com a perda da esposa e bebe diariamente, o que de nada ajuda no seu relacionamento com a filha. Enquanto isso, Ale vai se aprofundando cada vez mais no diário de Mia, até que resolve se aproximar de Julia e fazer amizade com a menina. Ela consegue, por fim, trabalhar na casa e se inserir por completo no contexto ao qual foi se familiarizando através do texto contido no diário. Notamos que o desejo de Ale em ter uma vida normal, com uma casa, uma família, “de ser quem ela quer ser”, como ela mesma diz, nos referencia do peso que se tem quando se é excluído socialmente. Afinal, seja a exclusão de qualquer tipo, fica evidente quanto o ser humano fica privado daquilo que lhe é inerente no seu direito mais básico como um cidadão existente, e presente, dentro de qualquer contexto social. E ao mesmo tempo, percebemos também o quanto a mãe de Julia não estava preparada para exercer tal função. Em um dado momento do seu diário, ela diz: “Mãe inexperiente procura substituta”. E Ale, parece querer atender tal solicitação. Esse momento me fez lembrar do filme “Precisamos Falar sobre Kevin” (We Need to Talk About Kevin, 2012), em que a personagem de Tilda Swinton também demonstra não ter nenhuma aptidão para cumprir o papel de mãe.

O recurso de usar um personagem principal que não aparece, funciona muito bem para o contexto do filme, uma vez que ilustra, de forma quase que metalinguística, a ausência de Mia na vida de sua filha. Hitchcock já havia feito tal uso de recurso no cinema, quando dirigiu a adaptação do livro de Daphne Du Maurier em “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), cujo protagonista também não aparece. Ela é construída a partir do que os outros personagens falam sobre sua personalidade. Rebecca é apresentada de uma forma um tanto quanto não muito confiável, digamos assim. Isso porque essa é justamente a intenção, para que possamos nos surpreender com a guinada do filme. Já em Mia, conseguimos perceber a sua personalidade através do que ela mesma diz. É através do conteúdo de sua própria escrita que passamos a conhecê-la e definimos o seu perfil.

Mia revela ser uma pessoa que optou por se autoexcluir não só de sua vida familiar, como da vida por completo. E assim, é possível interpretar que o filme aborda o tema da exclusão de uma forma mais abrangente. Ou seja, além da visível e óbvia exclusão e preconceitos sociais sentidos pelos travestis da Aldeia Rosa, temos do outro lado uma protagonista que é igualmente incompreendida e profundamente julgada por todos, com exceção de Ale. Isso porque ela resolveu lidar com seus conflitos internos da forma que achou ser a mais correta dentro daquilo que sentia. Quando Julia pergunta para Ale o motivo pelo qual ela fala e se veste como mulher, esta responde: “porque é como me sinto”. Essa mesma resposta poderia ser a de Mia para o fato de não conseguir se expressar como uma mãe-esposa pertencente a uma família. O que está contido no íntimo de cada um é algo que pulsa tão forte, que não pode ser controlado ou encoberto por muito tempo, porque faz parte do que se é e do que precisamos para nos tornarmos completos. Coisas como preconceitos e julgamentos não passam de uma enorme ignorância pretensiosa. São apenas uma vã e inútil tentativa de enquadrarmos o que é certo e errado sob um parâmetro extremamente simplista dentro da imensidão indefinível que é a complexidade humana. Espero que o filme entre em circuito aberto para que consiga um alcance maior, e não fique restrito, e quase que também excluído, de um público ainda mais diversificado.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Gonzaga, de Pai para Filho


O diretor Breno Silveira retoma o tema biográfico no cinema ao retratar a vida de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Anteriormente, em 2005, havia feito “2 Filhos de Francisco”, contando a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. E, novamente, com Patrícia Andrade, divide a parceria no roteiro do filme, que centra sua narrativa na difícil relação entre pai e filho.

A semelhança física dos atores com seus personagens reais é o que mais surpreende. Destaque para Júlio Andrade, que parece ter, literalmente, incorporado Gonzaguinha. O ator gaúcho diz que sempre teve uma forte identificação com a música do cantor e que, inclusive, também chegou a cantar em barzinhos durante uma época de sua vida, e canções de Gonzaguinha faziam parte de seu repertório. Além de Júlio, o ator mirim Alison Santos representa o cantor em sua infância. Sendo que ele já era conhecido de Breno, pois havia feito o teste para seu filme anterior, “À Beira do Caminho”. O Gonzaguinha adolescente ficou por conta de Giancarlo Di Tommaso. Ambos atores estão em atuações deslumbrantes ao transmitirem a revolta de um filho com um pai sempre ausente e que nunca lhe demonstrou amor e carinho. E este também é vivido por três atores diferentes: Land Vieira, vive o Luiz adolescente, morando com sua família em Exu, cidade no interior do sertão pernambucano; Chambinho do Acordeon, faz Gonzagão em seu momento de ascenção e reconhecimento público; e Adélio Lima interpreta ele aos 70 anos de idade, conversando e tentando se entender com o filho. Vale ressaltar que a escolha de Chambinho aconteceu em uma seleção entre cinco mil canditados. Breno diz ter escolhido ele graças ao seu sorriso, que transmitiria justamente a alegria de Gonzagão, além, é claro, do fato dele já ser um profissional do acordeon.

O filme está dividido em dois tempos narrativos: o tempo presente, que é 1980; e o tempo passado, que é mostrado à medida que Gonzaga vai contando sua história para o filho. O mote central está na conversa entre os dois, que acaba virando uma espécie de entrevista, que realmente foi gravada por Gonzaguinha, na época, e serviu também como material de pesquisa para a produção. Por ser um filme biográfico, a montagem tem como privilégio fazer uso de imagens de arquivo dos verdadeiros personagens de sua história. Isso poderia causar uma certa confusão de linguagem, no entanto, funciona como algo complementar dentro do contexto apresentado. A trilha sonora faz uso de instrumentos musicais que funcionam como leitmotivs para os personagens. Gonzagão é acompanhado, logicamente, pelo som do acordeon e para Gonzaguinha, o som que ouvimos é do violão. Além de também estar presente canções dos próprios cantores, afinal se trata de dois grandes nomes da música brasileira, e é claro, que elas permeiam todo o filme. Tanto que, em alguns momentos, são utilizadas de forma quase descritivas. Por exemplo, quando Luiz retorna, já consagrado, à Exu para rever sua família, seu pai, Januário, abre a porta e em seguida vemos a casa se transformar numa grande festa. O momento é embalado pela música “Respeita Januário”, cuja letra descreve exatamente o que nos é mostrado em cena.

Percebemos que o tom do filme nos leva a uma visão um tanto quanto geral, pois opta por não se aprofundar em algumas questões, como por exemplo, o real motivo do descaso afetivo do pai com o filho. Especula-se que sua mãe teria conhecido Luiz Gonzaga já grávida. No entanto, a escolha do roteiro prefere apontar que a dificuldade da relação dos dois se sustenta pelas visíveis diferenças de opiniões e visões de mundo que eles expressam. Afinal, Gonzagão veio do sertão e não recebeu uma educação tradicional, já Gonzaguinha, foi criado na cidade grande e estudou nos melhores colégios. Porém, independente de quaisquer fatores, ou justamente por causa deles, ambos são dotados de uma enorme riqueza artística, que realmente merecia ser engrandecidamente registrada na tela do cinema.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

As Vantagens de Ser Invisível


Em 1999, o roteirista, diretor e escritor americano, Stephen Chbosky, lançou o livro “The Perks of Beign a Wallflower”. Em 2012, o mesmo Stephen roteirizou e dirigiu a adaptação de sua obra literária para o cinema, cuja intenção é fazer com que mais pessoas conheçam a história criada por ele, que é parcialmente auto-biográfica, e relata sobre o período de sua adolescência. Tal intuito lhe ocorreu pelo fato de ter recebido ao longo dos anos, desde que o livro foi publicado, inúmeras cartas de jovens adolescentes que lhe agradeciam e enalteciam o quanto tudo aquilo escrito por ele, lhes salvaram de alguma forma.

O título original do livro e do filme vale a pena ser melhor compreendido. Wallflower é um termo em inglês que diz respeito a alguém que está sem par em um baile e fica encostado na parede, alguém que está à margem do que se passa, um observador. Até que a tradução para o português ficou interessante, já que não teríamos uma palavra específica para tal expressão. Sendo assim, é possível considerar que ter um certo tipo de invisibilidade, pode realmente ser uma boa conotação para descrever um wallflower.

A época em que o filme se passa não fica muito clara. Vemos os personagens fazendo mixagens em fitas cassetes e não há a presença de computadores ou celulares. No entanto, o figurino não nos remete aos anos 70 ou 80. Talvez o uso dessa não referência de época tenha sido intencional, como forma de reforçar uma ideia mais universal de nostalgia. A fotografia também contribui, ao utilizar uma certa granulação.

A história gira em torno de Charlie, o wallflower em questão, que se prepara para ingressar no high school (ensino médio). O filme começa com a narração dele, sob forma de uma carta sendo escrita para um amigo. A sua narrativa permeia seus acontecimentos, ao mesmo tempo que acompanhamos suas reflexões. Com isso, também vamos, aos poucos, conhecendo e entendo melhor a sensibilidade, inteligência e timidez de Charlie. Sua vida muda quando ele faz novas amizades e conhece Sam e Patrick. A notável química entre os três atores é um mérito que merece ser observado. A escolha de Stephen foi bastante acertada: Emma Watson (Sam), que finalmente conseguiu tirar o estigma de sua personagem, durante anos, em “Harry Potter” (idem, 2001-2011), aparece aqui com um novo corte de cabelo e sem o seu nativo sotaque britânico; Ezra Miller (Patrick), que ficou conhecido como o personagem-título do, excelente, “PrecisamosFalar Sobre Kevin(We Need To Talk About Kevin, 2012), se apresenta agora em um papel totalmente diferente, de um jovem gay com um afinadíssimo senso de humor; Logan Lerman (Charlie), que assim como Emma, estreou nos cinemas ainda criança, em “O Patriota” (The Patriot, 2000), e está de uma forma absolutamente sublime e comovente. Enfim, esse jovens atores muito ainda prometem, dada a naturalidade e sinceridade de suas atuações.

Apesar de Charlie ser um freshman (calouro), Sam e Patrick, que já são seniors (veteranos, no último ano escolar) o acolhem em seu círculo de amizades. Sendo que, isso não seria considerado algo muito comum dentro do universo que vivem, como já foi visto em diversos filmes que abordavam tal tema. Dentre os diversos tipos de segregações existente nos high schools americanos, o grau de ensino seria um dos motivos para que os alunos não se “misturem”. Com isso, Charlie consegue ter uma vida mais sociável e menos isolada. Isolamento esse que vai tendo o seu motivo revelado aos poucos. Durante uma festa, Charlie, que fica levemente dopado, conta à Sam que o seu melhor amigo se matou no ano anterior. O que nos leva a compreender uma cena vista anteriormente dele tomando alguns remédios, que poderiam ser antidepressivos. No entanto, o foco do filme não recai sobre tal assunto. Pelo contrário, vai fluindo e é intercalado por alguns flashbacks de Charlie quando criança e de sua relação com uma tia, que era alguém de quem ele gostava muito. As imagens e recordações dele com a tia vão ficando cada vez mais recorrentes, até finalmente entendermos o motivo de tal ligação. O auge catártico das emoções de Charlie surgem quando termina o período escolar e Sam e Patrick vão para a faculdade. Tudo que aconteceu em seu passado vem à tona, somada a despedida dos seus amigos.

O ritmo da montagem do filme nos leva a uma grande emoção, ao reservar para o seu final o complemento daquilo que, de maneira surpreendente e esclarecedora, poderia ser a causa do extremo grau de dificuldade de Charlie em se expor e expressar seus sentimentos. Ao mesmo tempo, também revela o quanto ele precisa vivenciar suas relações, mesmo sabendo que não haverá garantias e que ele poderá sofrer novamente com elas. Porque, às vezes, a vida, realmente, nos afeta de um modo totalmente inesperado, no entanto, ela mesma nos mostra o quanto temos a capacidade de transformá-la em algo ainda maior, além até de nós mesmos. Pois, como Charlie diz: “nós somos infinitos!” E assim, somos embalados com a música-hino do filme (Heroes, de David Bowie), que curiosamente, teve uma regravação feita pela banda, liderada pelo filho de Bob Dylan, The Wallflowers: “we can be heroes, just for one day... / we can be heroes, for ever and ever”.

domingo, 7 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012


Este ano estou levando o festival de forma bem tranquila. E, curiosamente, estou reparando que tem acontecido sempre alguma situação interessante durante ou depois das sessões. Até agora assisti cinco filmes. E reparei que para cada sessão, sempre tiro alguma frase marcante daquele dia. Vamos então a alguns desses filmes e suas respectivas situações e frases.

ELENA (idem, 2011), de Andrei Zvyagintsev. A produção russa foi vencedora do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cannes de 2011. Andrei é o mesmo diretor de O Retorno (Vozvrashchenie, 2003), que, na época, ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza. Elena narra a história da personagem título, que possui uma relação de esposa/empregada/enfermeira com Vladimir. Eles se consideram casados, no entanto, dormem em cômodos separados. Aos poucos vamos entendendo como Elena entrou na vida do homem com quem mora. Percebemos que ele possui uma boa condição financeira e tem uma filha, que raramente vê. Elena tem um filho extremamente acomodado e preguiçoso, que é casado e tem dois filhos. Ela ajuda-os financeiramente, através de contribuições que consegue através de seu marido, que deixa claro não concordar com essa atitude dela em relação ao filho. Após sermos apresentados a tais situações, Vladimir sofre um infarto e é levado para o hospital. Ele solicita à Elena que entre em contato com sua filha, pois deseja vê-la neste momento em que se encontra enfermo. Considero o diálogo dos dois, no quarto do hospital, como sendo o momento essencial do filme. A opinião de sua filha sobre o motivo pelo qual as pessoas insistem em constituir uma família, ilustra de maneira prévia, exatamente o que irá ocorrer nos acontecimentos seguintes. [Spoiler] Elena acaba matando Vladimir para poder ficar com seu dinheiro e sua casa e leva a família de seu filho para morar lá.
Situação interessante: Um pouco antes do final do filme, de repente, ele para. Todos no cinema acham que acabou. No entanto, os créditos não sobem. As luzes se acendem e todos ficam comentando: “Ué, acabou mesmo? Será?” As pessoas vão se levantando e saindo da sala sem entender muito bem. Até que o senhor que estava ao meu lado diz algo que passa a fazer muito sentido: “Elena roubou tudo dele! Até mesmo os créditos!” Achei sensacional, porque se o diretor realmente tivesse feito isso, de não colocar os créditos finais intencionalmente, faria realmente sentido para o contexto do filme. Mas, aí surge uma mulher que é funcionária do cinema e diz para todos que o filme não acabou. A película se rompeu e estava sendo consertada, pois ainda faltava 1 minuto para terminar. Ficamos então esperando por um tempo, até que ela retornou, e parecia estar já com uma certa impaciência, pois uma outra sessão iria ocorrer na mesma sala. E então ela simplesmente nos conta o final do filme. Todos aplaudem e saem rindo com tal situação, que foi muito engraçada.

A COLEÇÃO INVISÍVEL (2012), de Bernard Attal. A produção é dirigida por um francês, que se apaixonou pelo Brasil, mais especificamente a Bahia, local onde o filme é situado. O roteiro é baseado num conto do escritor austríaco, Stefan Zweig, e foi escrito pelo próprio Bernard, com a ajuda do também diretor Sérgio Machado. É estrelado por Vladimir Brichta, cujo personagem vai para o interior da Bahia em busca de uma coleção vendida pelo seu pai a um colecionador, que é vivido por Walmor Chagas. Pelo fato de Brichta fazer muitos papéis cômicos é um pouco difícil vê-lo atuando de forma séria, em uma história sensível. No entanto, o tom do filme consegue empurrá-lo para nos mostrar esse seu outro lado de interpretação.
Situação interessante: Assisti esse filme no Pavilhão do Festival, onde após a exibição, geralmente acontece um debate com o diretor e os atores. Fui assistir o debate e lá descobrimos que o que trouxe realmente o diretor francês para a Bahia foi Jorge Amado. Ele é completamente apaixonado pela obra do autor baiano. Isso nos prova que a arte é mesmo universal, não importa a língua que se fale. Depois, durante o debate, foi falado sobre a função da profissão de ator. Bernad nos conta que não precisou falar muita coisa para Walmor Chagas, pois ele já sabia o que devia ser feito. E então Walmor diz uma frase que considerei muito interessante: “O ator é um exibicionista. E ao nos exibirmos, revelamos o nosso íntimo e o íntimo de todo mundo, pois representamos aquilo todos nós somos”.

THE PLEASURE GARDEN (idem, 1925), de Alfred Hitchcock. Esse ano o festival está com uma mostra chamada Foco Reino Unido e foram selecionados alguns filmes antigos e clássicos para serem exibidos. Esse foi o primeiro filme de Hitchcock, ainda na época do cinema mudo. Trata-se de uma história de duas dançarinas que trabalham numa casa chamada Jardim dos Prazeres. Uma é a mocinha de vida simples, que mora com um cachorro em um pequeno apartamento. A outra é uma esnobe e ganaciosa, que quer subir na vida de qualquer jeito.
Situação interessante: O filme foi exibido na praia de Copacabana em um telão montado na areia. A trilha sonora foi tocada ao vivo pela Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem. Foi tudo muito bonito e, ao mesmo tempo, moderno e nostálgico, de ver uma situação como essa em plena praia. Após as vinhetas de patrocínio, todos fizeram um enorme silêncio, pois o filme ia começar. Exatamente nesse momento, um vendedor grita: “Olha o biscoito globo, refrigerante e água mineral!” Todo mundo riu muito e logo em seguida o filme começou.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Beleza Adormecida e Movimento Browniano


Dois filmes que podem ser considerados estranhos e com temas idem. Assistidos em duas sessões seguidas. Primeiro a produção australiana, Beleza Adormecida (Sleeping Beauty, 2011), escrita e dirigida pela estreante Julia Leigh. Tanto no trailer quanto no cartaz há os seguintes dizeres: “Jane Campion apresenta”. Com certeza, a renomada diretora de O Piano (The Piano, 1993), contribuiu de alguma forma para o filme, apesar de seu nome não aparecer nos créditos, só mesmo na parte de “a very special thanks”. O filme seguinte foi o holandês Movimento Browniano (Brownian Movement, 2010), da também diretora e escritora Nanouk Leopold, sendo este é o seu primeiro filme falado em inglês (e francês). Os anteriores eram falados em holandês. O que podemos chamar de estranheza está tanto na forma como no conteúdo das duas histórias. Ambos possuem em comum a abordagem que cerca aquilo que podemos considerar como um certo tipo de fetichismo. No entanto, o objeto de fetiche, no caso dos dois filmes, é o próprio ser humano.

Beleza Adormecida é estrelado pela atriz Emily Browning, conhecida por filmes mais comerciais como Desventuras em Série (A Series of Unfortunate Events, 2004) e Sucker Punch (idem, 2011). Aqui ela vive Lucy, uma estudante universitária que trabalha em vários lugares para conseguir se manter financeiramente. Dentre seus empregos, está o de ser também uma garota de programa. Ao ver um anúncio no jornal, ela acaba entrando em mais um trabalho que oferece tal tipo de serviço, no entanto, com um público mais específico, o de senhores de idade extremamente ricos. Uma das vontades desses senhores é de fazerem uso de sua presença enquanto ela estiver dormindo. Lucy aceita tal condição e é dopada pela sua agente em uma mansão de luxo, permitindo assim que esses senhores façam o que quiserem com o seu corpo adormecido. O filme possui um tom frio e apático, seja pela fotografia, ao fazer uso de cores em tons pastéis, seja pela interpretação de Emily, com sua pele muito branca e o seu ar indiferente. Vale ressaltar e elogiar o alto grau de concentração da atriz para as cenas em que os homens a “usam” enquanto dorme. A diretora traz algumas referências de outros diretores para o seu filme. É possível perceber influência de Luis Buñuel e Stanley Kubrick, com o seu De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1998), principalmente na cena do requintado jantar servido à inglesa por moças de lingerie.

O título da produção Movimento Browniano está relacionado a um tipo de movimento de partículas detectado pelo botânico escocês Robert Brown, em 1827, ao analisar grãos de pólen de flores. Ele percebeu que ao serem colocados na água, essas partículas se movimentavam de maneira aleatória e incessante. Incialmente ele achou que tal movimento fosse provocado por algo que considerava como força vital, ou seja, uma força proveniente dos seres vivos. No entanto, observou que tais partículas também adquiriam esse mesmo movimento em coisas inanimadas, tais como cinza, quartzo e cobre. O seu estudo desencadeou uma série de outros trabalhos que vieram a ser utilizados e aprimorados por vários outros pesquisadores, até mesmo, o então ainda desconhecido jovem Albert Einstein. No caso do filme, tal teoria física se faz presente em sua personagem principal, uma médica que sente um forte impulso de fazer sexo com os pacientes do hospital em que trabalha. A aleatoriadade desse seu impulso está no fato de que ela escolhe qualquer tipo de homem: peludos, carecas, gordos e até mesmo velhinhos. Ela se mostra completamente fascinada por tais idiossincrasias de cada um desses homens, chegando a lembrar o tipo de fascínio da fotógrafa Diana Arbus, que está muito bem retratada no filme A Pele (Fur, 2006), de Steven Shainberg.

O filme é narrado divido em três partes. Na primeira, somos apresentado a questão sexual impulsiva da médica, que é casada e tem um filho pequeno. A segunda parte, é quando todos descobrem o que está acontecendo, inclusive o seu marido. Ela passa a frequentar sessões de terapia com uma analista. Ainda bem que o próprio filme não se prolonga em tal questão, pois acredito que nenhuma obra deva se autoanalisar e/ou se justificar, e sim deixar isso para seus espectadores. E na terceira parte, vemos a tentativa de superação de tal acontecimento.

A questão levantada pelos dois filmes está ligada ao impulso sexual/comportamental versus ao que é considerado aceitável/moral pela sociedade. “Aqui não há nada do que se envergonhar. Ninguém irá julgá-lo.”, diz a agente de Lucy para os seus idosos clientes, em Beleza Adormecida. Essa fala também funcionaria para a médica de Movimento Browniano, que aluga um apartamento só para receber os seus pacientes e fazer sexo com eles. A vergonha não está no impulso sexual em si, mas sim no medo da descoberta e da não compreensão dos olhares alheios. Até porque não há a intenção de que isso seja revelado. Tal assunto também foi abordado em um outro filme recente, Shame (idem, 2011), do diretor Steve McQueen (sim, ele tem o mesmo nome do ator), cujo personagem principal é completamente obcecado por sexo em suas mais váriadas formas. No entanto, faz uso disso de uma maneira, digamos, mais sociável, mas nem por isso menos incomum, devido a sua frequência.

Todos esses momentos vividos por esses personagens nos mostram a importância e o grau de necessidade que tais momentos lhes proporcionam. Trata-se de algo que está entranhado no íntimo de suas essências. O que eles fazem, o fazem para si próprios, para saciar algo que se move dentro deles de maneira incessante, incontrolável e inexplicável, assim como as partículas do pólen de Robert Brown. Os seres humanos são dotados de uma complexidade que abrange uma amplitude imensurável e que deveria ser vista de uma perspectiva igualmente vasta. Afinal, todos nós somos repletos de contradições, imperfeições, conflitos, diferenças, tensões, impulsos e instintos. É isso que nos torna únicos e nos define como criaturas com uma alta capacidade de transformação e reflexão sobre si mesmos. O que talvez precisamos fazer seja uma reavaliação na forma como negamos, negligenciamos e julgamos a existência de tais impulsos. Quem sabe assim se torne mais simples lidar e aceitar que eles fazem parte e estão presentes nas nossas vidas. E aí nos possibilite uma melhor maneira de elaborá-los e canalizá-los, para que por fim nos sintamos mais livres dentro do corpo que habitamos.

sábado, 14 de julho de 2012

Histórias que só existem quando lembradas


Julia Murat é filha da também diretora Lúcia Murat ("Quase Dois Irmãos", 2003 e "Uma Longa Viagem", 2011). Começou no cinema como estagiária de assistente de direção de Ruy Guerra, no filme "Estorvo" e, desde então, vem se firmando no meio cinematográfico, sendo este o seu primeiro longa. O filme, já acumula no currículo diversos prêmios no exterior, em importantes festivais, tais como: Veneza, Toronto, San Sebastian, entre outros.

A ideia para o longa surgiu em 1999, quando Julia viajava com a mãe na gravação de "Brava Gente Brasileira", no Mato Grosso do Sul. A equipe estava em Forte Coimbra e descobriu que o cemitério da cidade estava fechado. As pessoas que faleciam deviam ser entrerradas na cidade de Corumbá, há sete horas dali. Isso foi o suficiente para o argumento do que viria se tornar "Histórias...". Depois disso, em 2008, Julia fez um documentário chamado "Dias dos Pais", em que entrevistou vários moradores da região do Vale do Paraíba. Seu documentário acabou por revelar o tipo de locação e pessoas com as quais Julia viria trabalhar em seu longa de ficção.

A narrativa acontece num vilarejo distante da cidade grande e do mundo moderno. Não há energia elétrica e seus habitantes se resumem a um pequeno grupo de idosos que são extremamente simples, igualmente às suas casas e estabelecimentos. Acompanhamos a repetição diária de uma rotina com a qual cada um desempenha um papel: Dona Madalena faz o pão, Seu Antonio abre a venda, o Padre reza a missa, e assim decorre um cotidiano que parece não sair do lugar, como se todos ali estivessem suspensos no tempo de suas vidas. Tanto que o cemitério está com os portões fechados porque como diz Seu Antônio "aqui a gente esquece de morrer". A montagem do filme também acontece nesse mesmo ritmo. Os planos são longos e contemplativos, o que contribui para essa sensação de lentidão quase inerte do ambiente apresentado. Outro recurso que reforça a ideia de uma rotina quase imutável, é a repetição dos diálogos entre os personagens de Sonia Guedes (Dona Madalena) e Luiz Serra (Seu Antonio), que acaba por acrescentar um tom cômico a cena. Vale ressaltar que, com exceção desses dois personagens, o restante do grupo de idosos apresentados são todos não atores.

Tudo segue como sempre, até que surge Rita (Lisa E. Fávero). Uma jovem com mochila nas costas e diversas câmeras fotográficas, uma moderna e outras no estilo pinholes (máquina feita de lata, somente com um furo). Ela pede abrigo na casa da Dona Madalena. A partir daí, vemos claramente o conflito não só de gerações mas também de tudo que representa a juventude frente à velhice e vice-versa. O que Rita faz ali, nem ela mesma sabe. Está à procura de algo que preencha um vazio de um mundo que está rápido demais, tanto que ela precisou fugir para um lugar onde tempo parou. No entanto, ela diz que também não pertence aquele lugar. "Que lugar você pertence?", pergunta Dona Madalena para Rita que não sabe dar essa resposta.

E a juventude de Rita, inicialmente não agrada muito aos habitantes idosos do vilarejo, talvez porque ela represente tudo aquilo que eles já foram e não mais poderão ser. Além de ser um novo elemento dentro de uma rotina já pré-estabelecida e que eles não pretendem modificá-la. Mas, no fundo acabam por perceber que isso não mais será possível após a sua chegada. [Atenção: spoiler à seguir] A cena em que Dona Madalena lhe dá a chave da porta do cemitério é emblemática, porque logo em seguida ela morre. Trata-se de um forte símbolo de que é a juventude que vai tomar o lugar dos idosos. E o final do filme deixa em aberto ao largar justamente na mão de Rita a decisão de que rumo sua vida deve tomar. Afinal, todos ali já sabem e conhecem muito bem o destino das suas.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Minha Felicidade



Definitivamente este não é um filme feliz. O título não passa de uma grande ironia que o diretor Sergei Loznitsa usou para promover o conceito da sua obra. Nascido na Bielorússia e criado na Ucrania, este é o seu primeiro longa de ficção. Anteriormente só havia feito documentários, e talvez pelo fato dessa sua premissa, o filme narre seus acontecimentos com um certo olhar documental, no sentido de apenas registrar uma determinada história, tentando ao máximo se abster de julgamentos. Nas palavras do próprio diretor, em uma entrevista cedida ao crítico Luiz Carlos Merten: "eu não julgo nada, o espectador que julgue".

O filme começa com um homem sendo jogado em uma vala para em seguida ser coberto por cimento. Logo depois aparece um trator empurrando um monte de terra em direção aos nossos olhos até que a tela do cinema fique totalmente escura e tenhamos a sensação de termos soterrado juntamente com aquele homem. Essa abertura não terá ligação alguma com nenhum outro personagem e nem justificativa do que virá a acontecer no decorrer do filme. E tal aparente aleatoriedade se repete em diversos outros momentos. A narrativa se desenrola de uma forma em que todos ali inseridos tenham, ao mesmo tempo, total ou nenhuma importância, inclusive com aquele que consideramos o protagonista.

O enredo se inicia a partir de um caminhoneiro, Georgy, que segue seu caminho por uma estrada. Ele é parado por uma patrulha rodoviária. Considero essa cena interessante e hipnótica. A câmera fica posicionada fixamente atrás do caminhoneiro sentado em sua caminhonete. A nossa visão é extremamente ampla e estão acontecendo várias coisas ao mesmo tempo: do lado esquerdo abaixo, aparece o guarda da patrulha solicitando os documentos de Georgy; do lado direito e mais à frente, um outro guarda está conversando com uma mulher em um carro conversível vermelho; e uma outra cena surge quando o caminhoneiro move a cabeça para pegar os documentos no porta-luvas, revelando um homem andando pela beira da estrada. Em um filme de ficção este é um plano um tanto quanto raro e longo, principalmente para uma câmera parada. Normalmente veríamos algum corte mostrando a reação de Georgy, por exemplo. Mas, isso acarretaria em algum tipo de julgamento, o que Loznitsa justamente não quer fazer.

Devido a duas situações apresentadas, percebemos que há dois tempos narrativos no filme. O tempo presente, com o caminhoneiro e um tempo passado, vivido durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira situação que faz referência a esse tempo é quando aparece o idoso que pega carona com Georgy e lhe conta sobre um fato ocorrido quando era jovem e havia servido ao exército russo. O flashback fica claro, pois há uma continuidade de diálogo entre o antes e o depois. No entanto, a segunda situação, com os dois soldados russos que pedem abrigo na casa de um professor com um filho pequeno, fica difícil perceber tal mudança de tempo e acaba nos confundindo um pouco.

E a felicidade realmente não está presente no filme, pelo contrário. Tudo o que vemos é abuso de poder, prostituição de criança, assassinatos e muita perversidade uns com os outros dentro de um contexto de verdadeiro caos social. Talvez, muito sutilmente na parte inicial, o semblante do protagonista até demonstre um certo ar feliz. Além de parecer ser uma pessoa boa, atenciosa e gentil. Mas, com o decorrer da narrativa e perante as crueldades que o cercam, e literalmente lhe acertam com uma paulada na cabeça, ele acaba também por se transformar e a fazer parte do contexto apático e indiferente que o rodeia. Falando assim parece até ser um filme de Tarantino, mas a violência que vemos aqui está dentro das pessoas e não explícita em cenas com muito sangue jorrando na tela acompanhada de uma trilha frenética. Aliás, trilha sonora é uma coisa inexistente no filme, a não ser de forma diegética, quando o personagem ouve uma múscia no rádio do carro.

Loznitsa se fez presente novamente este ano em Cannes com seu segundo longa - In The Fog - que recebeu o prêmio FIPRESCI (International Federation of Film Critics). Em 2010 ele não ganhou nada com o Minha Felicidade, que talvez não tenha sido considerado sombrio o suficiente para o presidente do júri naquele ano, Tim Burton.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um Método Perigoso


Diretores com estilo próprio costumam chamar a atenção da crítica e do público. O canadense David Cronenberg sempre teve seu estilo associado a filmes em que seus personagens apresentassem anatomicamente formas, literalmente, agregadas ao universo contextual de suas histórias. Como se a teoria de Marshall McLuhan (autor do livro "Os meios de comunicação como extensões do homem") fosse colocada em prática em filmes como Videodrome (1983), A Mosca (1986) e Existenz (1999). Essa característica sempre foi tão forte ao ponto do diretor ganhar o apelido de David CronenBLERG, como reação de repugnância provocadas pelas cenas de seus filmes. No entanto, a partir de 2002 com Spider, Cronenberg parece estar menos escatológico e mais psicológico. Tal tendência segue nos filmes seguintes, sempre estrelados por Vigo Mortensen: Marcas da Violência (2005), Senhores do Crime (2007) e Um Método Perigoso (2011).

Neste último percebemos que Cronenberg, na verdade, não mudou de estilo, ele somente o aprimorou. A diferença é que antes ele optava por mostrar em carne viva as modificações que a mente pode provocar no comportamento humano, agora ele prefere mostrar os efeitos de maneira puramente intelectual. Não é à toa que ele nos apresente um filme cujos personagens são Freud e Jung, discutindo sobre psicanálise e inconsciente coletivo. A história é baseada na peça "The Talking Cure", escrita por Cristopher Hampton, que por sua vez se baseou no livro de John Kerr,  "A Most Dangerous Method". A adaptação do roteiro para o cinema ficou por conta de Hampton, que assim o fez também para Ligações Perigosas, em 1988.

Tudo começa com a internação de uma paciente histérica, vivida por Keira Knightley, em um hospital psiquiátrico. A paciente em questão é a russa Sabina Spielrein e será internada e tratada pelo médico Carl Gustav Jung (Michael Fassbender), que resolve colocar em prática um novo método de tratamento criado por um colega chamado Sigmund Freud (Vigo Mortensen). Trata-se do início da descoberta da psicanálise como forma de cura para os problemas de origem psicológica. Aos poucos, Jung vai extraindo e descobrindo a origem do problema histérico de Sabina até o momento em que ela fica totalmente curada e retoma seus estudos, também na área médica. A questão é que ele acaba se envolvendo de forma afetiva e sexual com sua ex-paciente, e a partir daí desencadeia uma série de divergências e discussões entre ele e Freud, não só no que diz respeito a falta de ética como nos pontos de seus próprios estudos.

Em um filme com diálogos extremamente interessantes, Cronenberg consegue preenchê-lo com planos e enquadramentos igualmente instigantes. Nas cenas de diálogo entre Jung e a sua paciente, nos momentos do tratamento, ele faz uso quase sempre do primeiro plano e segundo plano, ambos focados. Assim, a nossa atenção não se desvia nem de um e nem do outro. Conseguimos ver ao mesmo tempo a ação das perguntas de Jung e as reações da sua paciente. As atuações estão muito bem sintonizadas. Talvez a Keira exagere um pouco em alguns momentos com umas caretas meio caricatas, mas nada que afete tanto a interpretação da sua personagem. Vale prestar a atenção na interpretação da atriz Sarah Gadon, que faz a esposa de Jung. Ela consegue transmitir um tom blasé e ao mesmo tempo preocupado com o seu casamento, mesmo estando ali como coadjuvante, surpreende ao demonstrar uma plena consciência do que se passa ao seu redor.

O próximo passo de Cronenberg se chama Cosmopolis, estrelado por Robert Pattinson. O filme é baseado no livro do autor americano Don DeLillo. Trata-se de um bilionário que sai em sua limousine para ir ao cabeleireiro e acaba se deparando em uma odisséia ao lidar com vários  personagens que irão mudar sua vida. Teaser: Cosmopolis.

sábado, 3 de março de 2012

O Artista



Parafraseando Arnaldo Antunes, "antes de existir a voz existia o silêncio", e quando existia o silêncio das palavras no cinema, ele era mudo. Com isso, a mudez das palavras fazia com que a importância das imagens e a expressão dos atores fossem vitais para se alcançar a compreensão das histórias projetadas na tela. A música também estava presente, no entanto, do lado de fora. Era orquestrada ao vivo dentro das salas e não inserida dentro dos filmes. É essa época que a produção vencedora do Oscar 2012 de Melhor Filme, resgata de maneira saudosa e homenageosa.

Porém, o diretor e roteirista, Michael Hazanavicius consegue fazer com que seu filme vá além de uma simples homenagem. O Artista fala sobre uma ruptura de dois momentos extremamente marcantes e que irão mudar para sempre a história da indústria cinematográfica mundial. O que passa a ser considerado o passado: os filmes mudos; e o futuro do cinema: os filmes falados. E é baseado neste fato que se delinea e se define a história do personagem principal, George Valentin. Ator de sucesso no cinema mudo, que se torna decadente e completamente esquecido com o surgimento do cinema falado.

O filme começa e termina de forma metalinguística, mostrando o cinema dentro do cinema. O ator Jean Dujardin interpreta seu personagem, que também é ator, de maneira fenomenal. Ele é um típico canastrão, que faz caras e bocas para conquistar seu público. É casado, porém não é feliz com sua esposa e nem ela com ele. E o seu companheiro coadjuvante na vida e nas telas é Uggie, um cachorro espertíssimo que nos comove em várias cenas, tanto dos filmes que Valentin interpreta quanto no filme em si, interpretado por Dujardin.

O filme se densenrola a partir do momento em que entra em cena Peppy Miller (Bérénice Bejo, que é casada com Hazanavicius), uma jovem atriz que, com uma ajuda inicial de Valentin ascende em sua carreira justamente no momento em que ele começa a decair. A presença dela na vida dele representa aquilo que veio para ficar em oposição aquilo que não mais será. Ela é jovem, vibrante, aberta as novas tecnologias e logo adere ao cinema falado. Ele é mais velho, conservador e não se conforma com a mudança sonora. Assim como o personagem Valentin, outros artistas reais, da época, também não concordavam com tal nova tecnologia. Charles Chaplin, por exemplo, foi o maior representante desse movimento contrário ao cinema falado. Tanto que conseguiu resistir por um bom tempo, tendo em vista que o cinema sonoro começou no início da década de 30, seu último filme mudo foi "O Grande Ditador" (The Great Dictator, 1940). Chaplin dizia que a partir do momento que seu personagem falasse, seria a sua morte. E assim ocorreu. O seu "vagabundo" não mais apareceu nos filmes que vieram a seguir. E o mesmo ocorre com Valentin, ele deixa de ser chamado para as novas produções até cair no completo esquecimento.

Há um momento em O Artista que considero funcionalmente brilhante. Trata-se de um sonho que Valentin e que nele consegue ouvir os sons dos objetos dentro do seu universo mudo. Essa cena consegue dimensionar a estranheza e maravilhamento que essa ruptura entre o cinema mudo e falado provocou. E ao mesmo tempo é interessante observar que tal cena só foi possível devido a ousada escolha do diretor Hazanavicius em fazer um filme igualmente mudo e em preto e branco. O encantamento do cinema está justamente em explorar as suas infinitas formas de linguagem. E estas não estão, necessariamente, centradas em questões tecnológicas. Pelo contrário, são nas questões simples, como se omitir a fala dos atores, que se consegue extrair toda grandeza que essa arte pode nos proporcionar. É claro que é preciso olhar pra frente, no entanto, a sabedoria em reutilizar o que já foi feito é capaz de produzir resultados surpreendentementes geniais.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Precisamos falar sobre Kevin



"Só porque nos acostumamos com algo, não significa que gostamos daquilo".
(Kevin, para a mãe, aos oito anos de idade)

O filme começa com uma fusão entre uma cena de uma cortina branca para um plano em zenital de uma multidão coberta por uma textura vermelha. Aos poucos percebemos que se trata da Tomatina, tradicional festa de guerra de tomates que acontece na Espanha. Em seguida vemos Eva (Tilda Swinton), sorridente e feliz, sendo levantada e carregada por vários braços que a largam em cima de uma poça de polpas de tomates. Pode-se dizer que tal cena funciona como um prelúdio para aquilo que ainda virá a acontecer na vida de Eva, ao relacionarmos o vermelho dos tomates com sangue.

A partir daí as cenas que se seguem vão aos poucos ganhando ritmo. A montagem ocorre dentro de três tempos narrativos diferentes: um no presente e dois tempos no passado. Destes dois, um quando Eva ainda se considerava uma mulher livre e o outro a partir do momento em que fica grávida de Kevin. A marcação desses três tempos está muito bem estruturada no filme, que faz uso de fusões sonoras e mudança de cenas que se interligam entre si e ao mesmo tempo se delimitam. Por exemplo, uma cena em que mostra várias mães na porta da escola e uma delas grita. Na cena seguinte, o grito da mãe se mescla com o grito de Eva no momento do parto. São duas cenas que estão em tempos narrativos diferentes e que se interligam através do som do grito das duas mães.

Além da montagem, a também excelente interpretação de Tilda Swinton nos faz perceber as mudanças provocadas em sua a vida dentro desses diferentes tempos. A escolha para o papel de Eva não poderia ser melhor. A inglesa Katherine Matilda Swinton possui um rosto que podemos considerar estranho, atípico e asssexuado. Não é à toa que se tornou conhecida quando atuou interpretando Orlando, na adaptação feita para o cinema em 1992 da obra de Virginia Woolf. No filme "Orlando, A Mulher Imortal", ela vive um personagem ora masculino, ora feminino que viveu durante quatrocentos anos. E ela funciona muito bem como Eva, por se tratar de uma personagem que demonstra desde o momento em que fica grávida não possuir nenhum tipo instinto materno. A visão do corpo de Tilda com uma enorme barriga, somado a sua expressão peculiar, contribui para que também consideremos tal imagem estranha. E sentimos claramente que ela não está nem um pouco à vontade com sua gravidez. Quando Kevin nasce, as coisas só pioram. Ele é um bebê que chora incessantemente, demora a falar e aos oito anos de idade ainda usa fraldas. Ou seja, como se não bastasse o fato de Eva não ter o "dom natural" de ser mãe, Kevin é uma criança extremamente problemática e que apresenta um certo desprezo por ela.

A trilha sonora é outro elemento interessante no filme, que provoca um contraste de sensações. A tensão crescente dentro da narrativa nos faz crer que algo muito ruim irá acontecer. No entanto, não há em nenhum momento uma trilha de suspense, pelo contrário, as músicas tocadas são, na maioria, de estilo folk e/ou com melodias lentas, alegres e até engraçadinhas. Ou seja, nada que remeta a um clima sombrio ou de horror.

O roteiro do filme é uma adaptação do livro homônimo da autora americana Lionel Shriver, que em 2005 ganhou o prêmio inglês de literatura, Orange, por Melhor Romance do Ano. O enredo acontece através de cartas escritas por Eva ao marido, não mais presente, que no filme é vivido pelo, também excelente, ator John C. Reilly.

Tanto o livro quanto o filme geraram polêmicas por levantarem algumas questões que não são muito discutidas, ainda mais de uma forma tão crua e sem sentimentalismos. Por exemplo, o fato de que nem todas as mulheres possuem instinto maternal ou querem ser mães. E ainda o fato de que pode sim haver uma ausência de amor entre pais e filhos. Afinal, o vínculo genético não é um fator comprobatório de que haja necessariamente uma relação de amor entre pessoas da mesma família. E ainda, a crueldade, o sofrimento e as triztezas fazem parte da vida tanto quanto a felicidade e as alegrias. O filme consegue não aplicar um juízo de valor para tais fatos e acontecimentos. Ele simplesmente os mostra como coisas que ocorrem. Não há explicações ou respostas. Devido a fatores culturais, educacionais, religiosos, etc, somos levados a pensar que os sofrimentos, tristezas, crueldades devam ser percebidos como abominações e anormalidades. No entanto, tudo isso faz parte da natureza humana, assim como as alegrias, bondades, caridades. Os sentimentos nos provocam sensações que podem nos trazer um certo peso ou leveza, no entanto, talvez não devêssemos aplicar a eles valoração boa ou ruim. O sofrimento, por exemplo é um sentimento pesado, todavia, é através dele que crescemos e aprendemos mais sobre nós mesmos e os outros. Tudo acontece porque faz parte da vida e se estamos vivos e não podemos impedir os acontecimentos que nos trazem peso, então é preciso saber lidar com eles e encará-los de uma forma diferente de como geralmente encaramos. Isso fica bem claro na cena final do filme. Eva é uma mulher que consegue, mesmo depois de tantas tragédias cercando sua vida, ter uma visão iluminada a respeito de tudo e seguir em frente à espera de novos acontecimentos.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Tomboy



Segundo o dicionário, a palavra "Tomboy" significa menina levada, que se interessa por atividades masculinas. E esse é o nome e tema do segundo longa da diretora francesa Céline Sciamma, que mais uma vez retoma a questão da sexualidade na pré-adolescência. Seu primeiro filme, "Lírios D'Água" (Naissance des pieuvres, 2007), aborda o despertar do desejo sexual entre meninas e meninos, sendo que uma dessas meninas se interessa por outra menina. Tanto em "Lírios D'Água" quanto em "Tomboy", a diretora e também roteirista, consegue referir-se ao universo infantil fazendo uso de uma narrativa que nos permite uma assimilação nostálgica por recordações daquilo que também já passamos.

Pelo título do filme já sabemos que Laure trata-se de uma menina, mas se não soubéssemos, poderíamos tranquilamente considerar que se tratava de um menino. Ela tem cabelos curtos, um rosto assexuado, usa roupas não muito femininas e brinca normalmente, tanto como faria um menino ou uma menina. Tem uma irmã menor, que é uma figura e rouba a cena do filme em diversos momentos, e com quem adora brincar e cuidar. No entanto, no período de férias escolares, a família se muda de cidade e Laure se apresenta às novas crianças do bairro como Michael, fazendo com que todas pensem que ela é um menino. Aos poucos ela vai se enturmando e se identificando mais com os meninos, com quem ela se sente mais à vontade. Uma das meninas, Lisa, se interessa por Laure e é a que se torna mais próxima, até o ponto de beijá-la, achando que ela é Michael.

O roteiro de Sciamma não tenta explicar ou justificar as atitudes de Laure, afinal as ações já falam por si. "Tomboy" parece ser a versão feminina de "Minha Vida em Cor de Rosa" (Ma Vie en Rose, 1997), do diretor belga Alain Berlinder. Neste, nos é apresentado um menino que tem todos os trejeitos de menina e que pensa ter nascido no corpo errado. Enquanto Berlinder opta por expressar no seu filme um tom de fábula, Sciamma se propõe em ser mais realista. Tanto que há o momento em que a verdade vem à tona e todos descobrem que Michael é Laure, afinal tal fato não poderia permanecer oculto por muito tempo.

O filme foi vencedor do Teddy Bear, no Festival de Berlim em 2011. Prêmio dado a filmes com temáticas homossexuais, no entanto, a diretora diz não querer ser rotulada como uma cineasta gay. Ela diz ainda que o filme só teve sucesso por ter encontrado a atriz certa. Zoé Héran, aceitou cortar o cabelo e conseguiu compreender todas as implicações que o filme poderia trazer. A família a acompanhou o tempo todo no set de filmagem. E para facilitar ainda mais, Sciamma chamou os amigos de Zoé para interpretarem seus amigos também no filme. Isso fez com que Tomboy ganhasse ainda mais naturalidade durante as cenas. E nada melhor do que ver questões tão complexas, seja no cinema ou na vida, de uma forma tão espontânea, bonita e poética.