sexta-feira, 13 de abril de 2012

Um Método Perigoso


Diretores com estilo próprio costumam chamar a atenção da crítica e do público. O canadense David Cronenberg sempre teve seu estilo associado a filmes em que seus personagens apresentassem anatomicamente formas, literalmente, agregadas ao universo contextual de suas histórias. Como se a teoria de Marshall McLuhan (autor do livro "Os meios de comunicação como extensões do homem") fosse colocada em prática em filmes como Videodrome (1983), A Mosca (1986) e Existenz (1999). Essa característica sempre foi tão forte ao ponto do diretor ganhar o apelido de David CronenBLERG, como reação de repugnância provocadas pelas cenas de seus filmes. No entanto, a partir de 2002 com Spider, Cronenberg parece estar menos escatológico e mais psicológico. Tal tendência segue nos filmes seguintes, sempre estrelados por Vigo Mortensen: Marcas da Violência (2005), Senhores do Crime (2007) e Um Método Perigoso (2011).

Neste último percebemos que Cronenberg, na verdade, não mudou de estilo, ele somente o aprimorou. A diferença é que antes ele optava por mostrar em carne viva as modificações que a mente pode provocar no comportamento humano, agora ele prefere mostrar os efeitos de maneira puramente intelectual. Não é à toa que ele nos apresente um filme cujos personagens são Freud e Jung, discutindo sobre psicanálise e inconsciente coletivo. A história é baseada na peça "The Talking Cure", escrita por Cristopher Hampton, que por sua vez se baseou no livro de John Kerr,  "A Most Dangerous Method". A adaptação do roteiro para o cinema ficou por conta de Hampton, que assim o fez também para Ligações Perigosas, em 1988.

Tudo começa com a internação de uma paciente histérica, vivida por Keira Knightley, em um hospital psiquiátrico. A paciente em questão é a russa Sabina Spielrein e será internada e tratada pelo médico Carl Gustav Jung (Michael Fassbender), que resolve colocar em prática um novo método de tratamento criado por um colega chamado Sigmund Freud (Vigo Mortensen). Trata-se do início da descoberta da psicanálise como forma de cura para os problemas de origem psicológica. Aos poucos, Jung vai extraindo e descobrindo a origem do problema histérico de Sabina até o momento em que ela fica totalmente curada e retoma seus estudos, também na área médica. A questão é que ele acaba se envolvendo de forma afetiva e sexual com sua ex-paciente, e a partir daí desencadeia uma série de divergências e discussões entre ele e Freud, não só no que diz respeito a falta de ética como nos pontos de seus próprios estudos.

Em um filme com diálogos extremamente interessantes, Cronenberg consegue preenchê-lo com planos e enquadramentos igualmente instigantes. Nas cenas de diálogo entre Jung e a sua paciente, nos momentos do tratamento, ele faz uso quase sempre do primeiro plano e segundo plano, ambos focados. Assim, a nossa atenção não se desvia nem de um e nem do outro. Conseguimos ver ao mesmo tempo a ação das perguntas de Jung e as reações da sua paciente. As atuações estão muito bem sintonizadas. Talvez a Keira exagere um pouco em alguns momentos com umas caretas meio caricatas, mas nada que afete tanto a interpretação da sua personagem. Vale prestar a atenção na interpretação da atriz Sarah Gadon, que faz a esposa de Jung. Ela consegue transmitir um tom blasé e ao mesmo tempo preocupado com o seu casamento, mesmo estando ali como coadjuvante, surpreende ao demonstrar uma plena consciência do que se passa ao seu redor.

O próximo passo de Cronenberg se chama Cosmopolis, estrelado por Robert Pattinson. O filme é baseado no livro do autor americano Don DeLillo. Trata-se de um bilionário que sai em sua limousine para ir ao cabeleireiro e acaba se deparando em uma odisséia ao lidar com vários  personagens que irão mudar sua vida. Teaser: Cosmopolis.