quinta-feira, 31 de maio de 2012

Minha Felicidade



Definitivamente este não é um filme feliz. O título não passa de uma grande ironia que o diretor Sergei Loznitsa usou para promover o conceito da sua obra. Nascido na Bielorússia e criado na Ucrania, este é o seu primeiro longa de ficção. Anteriormente só havia feito documentários, e talvez pelo fato dessa sua premissa, o filme narre seus acontecimentos com um certo olhar documental, no sentido de apenas registrar uma determinada história, tentando ao máximo se abster de julgamentos. Nas palavras do próprio diretor, em uma entrevista cedida ao crítico Luiz Carlos Merten: "eu não julgo nada, o espectador que julgue".

O filme começa com um homem sendo jogado em uma vala para em seguida ser coberto por cimento. Logo depois aparece um trator empurrando um monte de terra em direção aos nossos olhos até que a tela do cinema fique totalmente escura e tenhamos a sensação de termos soterrado juntamente com aquele homem. Essa abertura não terá ligação alguma com nenhum outro personagem e nem justificativa do que virá a acontecer no decorrer do filme. E tal aparente aleatoriedade se repete em diversos outros momentos. A narrativa se desenrola de uma forma em que todos ali inseridos tenham, ao mesmo tempo, total ou nenhuma importância, inclusive com aquele que consideramos o protagonista.

O enredo se inicia a partir de um caminhoneiro, Georgy, que segue seu caminho por uma estrada. Ele é parado por uma patrulha rodoviária. Considero essa cena interessante e hipnótica. A câmera fica posicionada fixamente atrás do caminhoneiro sentado em sua caminhonete. A nossa visão é extremamente ampla e estão acontecendo várias coisas ao mesmo tempo: do lado esquerdo abaixo, aparece o guarda da patrulha solicitando os documentos de Georgy; do lado direito e mais à frente, um outro guarda está conversando com uma mulher em um carro conversível vermelho; e uma outra cena surge quando o caminhoneiro move a cabeça para pegar os documentos no porta-luvas, revelando um homem andando pela beira da estrada. Em um filme de ficção este é um plano um tanto quanto raro e longo, principalmente para uma câmera parada. Normalmente veríamos algum corte mostrando a reação de Georgy, por exemplo. Mas, isso acarretaria em algum tipo de julgamento, o que Loznitsa justamente não quer fazer.

Devido a duas situações apresentadas, percebemos que há dois tempos narrativos no filme. O tempo presente, com o caminhoneiro e um tempo passado, vivido durante a Segunda Guerra Mundial. A primeira situação que faz referência a esse tempo é quando aparece o idoso que pega carona com Georgy e lhe conta sobre um fato ocorrido quando era jovem e havia servido ao exército russo. O flashback fica claro, pois há uma continuidade de diálogo entre o antes e o depois. No entanto, a segunda situação, com os dois soldados russos que pedem abrigo na casa de um professor com um filho pequeno, fica difícil perceber tal mudança de tempo e acaba nos confundindo um pouco.

E a felicidade realmente não está presente no filme, pelo contrário. Tudo o que vemos é abuso de poder, prostituição de criança, assassinatos e muita perversidade uns com os outros dentro de um contexto de verdadeiro caos social. Talvez, muito sutilmente na parte inicial, o semblante do protagonista até demonstre um certo ar feliz. Além de parecer ser uma pessoa boa, atenciosa e gentil. Mas, com o decorrer da narrativa e perante as crueldades que o cercam, e literalmente lhe acertam com uma paulada na cabeça, ele acaba também por se transformar e a fazer parte do contexto apático e indiferente que o rodeia. Falando assim parece até ser um filme de Tarantino, mas a violência que vemos aqui está dentro das pessoas e não explícita em cenas com muito sangue jorrando na tela acompanhada de uma trilha frenética. Aliás, trilha sonora é uma coisa inexistente no filme, a não ser de forma diegética, quando o personagem ouve uma múscia no rádio do carro.

Loznitsa se fez presente novamente este ano em Cannes com seu segundo longa - In The Fog - que recebeu o prêmio FIPRESCI (International Federation of Film Critics). Em 2010 ele não ganhou nada com o Minha Felicidade, que talvez não tenha sido considerado sombrio o suficiente para o presidente do júri naquele ano, Tim Burton.