sábado, 14 de julho de 2012

Histórias que só existem quando lembradas


Julia Murat é filha da também diretora Lúcia Murat ("Quase Dois Irmãos", 2003 e "Uma Longa Viagem", 2011). Começou no cinema como estagiária de assistente de direção de Ruy Guerra, no filme "Estorvo" e, desde então, vem se firmando no meio cinematográfico, sendo este o seu primeiro longa. O filme, já acumula no currículo diversos prêmios no exterior, em importantes festivais, tais como: Veneza, Toronto, San Sebastian, entre outros.

A ideia para o longa surgiu em 1999, quando Julia viajava com a mãe na gravação de "Brava Gente Brasileira", no Mato Grosso do Sul. A equipe estava em Forte Coimbra e descobriu que o cemitério da cidade estava fechado. As pessoas que faleciam deviam ser entrerradas na cidade de Corumbá, há sete horas dali. Isso foi o suficiente para o argumento do que viria se tornar "Histórias...". Depois disso, em 2008, Julia fez um documentário chamado "Dias dos Pais", em que entrevistou vários moradores da região do Vale do Paraíba. Seu documentário acabou por revelar o tipo de locação e pessoas com as quais Julia viria trabalhar em seu longa de ficção.

A narrativa acontece num vilarejo distante da cidade grande e do mundo moderno. Não há energia elétrica e seus habitantes se resumem a um pequeno grupo de idosos que são extremamente simples, igualmente às suas casas e estabelecimentos. Acompanhamos a repetição diária de uma rotina com a qual cada um desempenha um papel: Dona Madalena faz o pão, Seu Antonio abre a venda, o Padre reza a missa, e assim decorre um cotidiano que parece não sair do lugar, como se todos ali estivessem suspensos no tempo de suas vidas. Tanto que o cemitério está com os portões fechados porque como diz Seu Antônio "aqui a gente esquece de morrer". A montagem do filme também acontece nesse mesmo ritmo. Os planos são longos e contemplativos, o que contribui para essa sensação de lentidão quase inerte do ambiente apresentado. Outro recurso que reforça a ideia de uma rotina quase imutável, é a repetição dos diálogos entre os personagens de Sonia Guedes (Dona Madalena) e Luiz Serra (Seu Antonio), que acaba por acrescentar um tom cômico a cena. Vale ressaltar que, com exceção desses dois personagens, o restante do grupo de idosos apresentados são todos não atores.

Tudo segue como sempre, até que surge Rita (Lisa E. Fávero). Uma jovem com mochila nas costas e diversas câmeras fotográficas, uma moderna e outras no estilo pinholes (máquina feita de lata, somente com um furo). Ela pede abrigo na casa da Dona Madalena. A partir daí, vemos claramente o conflito não só de gerações mas também de tudo que representa a juventude frente à velhice e vice-versa. O que Rita faz ali, nem ela mesma sabe. Está à procura de algo que preencha um vazio de um mundo que está rápido demais, tanto que ela precisou fugir para um lugar onde tempo parou. No entanto, ela diz que também não pertence aquele lugar. "Que lugar você pertence?", pergunta Dona Madalena para Rita que não sabe dar essa resposta.

E a juventude de Rita, inicialmente não agrada muito aos habitantes idosos do vilarejo, talvez porque ela represente tudo aquilo que eles já foram e não mais poderão ser. Além de ser um novo elemento dentro de uma rotina já pré-estabelecida e que eles não pretendem modificá-la. Mas, no fundo acabam por perceber que isso não mais será possível após a sua chegada. [Atenção: spoiler à seguir] A cena em que Dona Madalena lhe dá a chave da porta do cemitério é emblemática, porque logo em seguida ela morre. Trata-se de um forte símbolo de que é a juventude que vai tomar o lugar dos idosos. E o final do filme deixa em aberto ao largar justamente na mão de Rita a decisão de que rumo sua vida deve tomar. Afinal, todos ali já sabem e conhecem muito bem o destino das suas.