segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Beleza Adormecida e Movimento Browniano


Dois filmes que podem ser considerados estranhos e com temas idem. Assistidos em duas sessões seguidas. Primeiro a produção australiana, Beleza Adormecida (Sleeping Beauty, 2011), escrita e dirigida pela estreante Julia Leigh. Tanto no trailer quanto no cartaz há os seguintes dizeres: “Jane Campion apresenta”. Com certeza, a renomada diretora de O Piano (The Piano, 1993), contribuiu de alguma forma para o filme, apesar de seu nome não aparecer nos créditos, só mesmo na parte de “a very special thanks”. O filme seguinte foi o holandês Movimento Browniano (Brownian Movement, 2010), da também diretora e escritora Nanouk Leopold, sendo este é o seu primeiro filme falado em inglês (e francês). Os anteriores eram falados em holandês. O que podemos chamar de estranheza está tanto na forma como no conteúdo das duas histórias. Ambos possuem em comum a abordagem que cerca aquilo que podemos considerar como um certo tipo de fetichismo. No entanto, o objeto de fetiche, no caso dos dois filmes, é o próprio ser humano.

Beleza Adormecida é estrelado pela atriz Emily Browning, conhecida por filmes mais comerciais como Desventuras em Série (A Series of Unfortunate Events, 2004) e Sucker Punch (idem, 2011). Aqui ela vive Lucy, uma estudante universitária que trabalha em vários lugares para conseguir se manter financeiramente. Dentre seus empregos, está o de ser também uma garota de programa. Ao ver um anúncio no jornal, ela acaba entrando em mais um trabalho que oferece tal tipo de serviço, no entanto, com um público mais específico, o de senhores de idade extremamente ricos. Uma das vontades desses senhores é de fazerem uso de sua presença enquanto ela estiver dormindo. Lucy aceita tal condição e é dopada pela sua agente em uma mansão de luxo, permitindo assim que esses senhores façam o que quiserem com o seu corpo adormecido. O filme possui um tom frio e apático, seja pela fotografia, ao fazer uso de cores em tons pastéis, seja pela interpretação de Emily, com sua pele muito branca e o seu ar indiferente. Vale ressaltar e elogiar o alto grau de concentração da atriz para as cenas em que os homens a “usam” enquanto dorme. A diretora traz algumas referências de outros diretores para o seu filme. É possível perceber influência de Luis Buñuel e Stanley Kubrick, com o seu De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1998), principalmente na cena do requintado jantar servido à inglesa por moças de lingerie.

O título da produção Movimento Browniano está relacionado a um tipo de movimento de partículas detectado pelo botânico escocês Robert Brown, em 1827, ao analisar grãos de pólen de flores. Ele percebeu que ao serem colocados na água, essas partículas se movimentavam de maneira aleatória e incessante. Incialmente ele achou que tal movimento fosse provocado por algo que considerava como força vital, ou seja, uma força proveniente dos seres vivos. No entanto, observou que tais partículas também adquiriam esse mesmo movimento em coisas inanimadas, tais como cinza, quartzo e cobre. O seu estudo desencadeou uma série de outros trabalhos que vieram a ser utilizados e aprimorados por vários outros pesquisadores, até mesmo, o então ainda desconhecido jovem Albert Einstein. No caso do filme, tal teoria física se faz presente em sua personagem principal, uma médica que sente um forte impulso de fazer sexo com os pacientes do hospital em que trabalha. A aleatoriadade desse seu impulso está no fato de que ela escolhe qualquer tipo de homem: peludos, carecas, gordos e até mesmo velhinhos. Ela se mostra completamente fascinada por tais idiossincrasias de cada um desses homens, chegando a lembrar o tipo de fascínio da fotógrafa Diana Arbus, que está muito bem retratada no filme A Pele (Fur, 2006), de Steven Shainberg.

O filme é narrado divido em três partes. Na primeira, somos apresentado a questão sexual impulsiva da médica, que é casada e tem um filho pequeno. A segunda parte, é quando todos descobrem o que está acontecendo, inclusive o seu marido. Ela passa a frequentar sessões de terapia com uma analista. Ainda bem que o próprio filme não se prolonga em tal questão, pois acredito que nenhuma obra deva se autoanalisar e/ou se justificar, e sim deixar isso para seus espectadores. E na terceira parte, vemos a tentativa de superação de tal acontecimento.

A questão levantada pelos dois filmes está ligada ao impulso sexual/comportamental versus ao que é considerado aceitável/moral pela sociedade. “Aqui não há nada do que se envergonhar. Ninguém irá julgá-lo.”, diz a agente de Lucy para os seus idosos clientes, em Beleza Adormecida. Essa fala também funcionaria para a médica de Movimento Browniano, que aluga um apartamento só para receber os seus pacientes e fazer sexo com eles. A vergonha não está no impulso sexual em si, mas sim no medo da descoberta e da não compreensão dos olhares alheios. Até porque não há a intenção de que isso seja revelado. Tal assunto também foi abordado em um outro filme recente, Shame (idem, 2011), do diretor Steve McQueen (sim, ele tem o mesmo nome do ator), cujo personagem principal é completamente obcecado por sexo em suas mais váriadas formas. No entanto, faz uso disso de uma maneira, digamos, mais sociável, mas nem por isso menos incomum, devido a sua frequência.

Todos esses momentos vividos por esses personagens nos mostram a importância e o grau de necessidade que tais momentos lhes proporcionam. Trata-se de algo que está entranhado no íntimo de suas essências. O que eles fazem, o fazem para si próprios, para saciar algo que se move dentro deles de maneira incessante, incontrolável e inexplicável, assim como as partículas do pólen de Robert Brown. Os seres humanos são dotados de uma complexidade que abrange uma amplitude imensurável e que deveria ser vista de uma perspectiva igualmente vasta. Afinal, todos nós somos repletos de contradições, imperfeições, conflitos, diferenças, tensões, impulsos e instintos. É isso que nos torna únicos e nos define como criaturas com uma alta capacidade de transformação e reflexão sobre si mesmos. O que talvez precisamos fazer seja uma reavaliação na forma como negamos, negligenciamos e julgamos a existência de tais impulsos. Quem sabe assim se torne mais simples lidar e aceitar que eles fazem parte e estão presentes nas nossas vidas. E aí nos possibilite uma melhor maneira de elaborá-los e canalizá-los, para que por fim nos sintamos mais livres dentro do corpo que habitamos.