quinta-feira, 25 de outubro de 2012

As Vantagens de Ser Invisível


Em 1999, o roteirista, diretor e escritor americano, Stephen Chbosky, lançou o livro “The Perks of Beign a Wallflower”. Em 2012, o mesmo Stephen roteirizou e dirigiu a adaptação de sua obra literária para o cinema, cuja intenção é fazer com que mais pessoas conheçam a história criada por ele, que é parcialmente auto-biográfica, e relata sobre o período de sua adolescência. Tal intuito lhe ocorreu pelo fato de ter recebido ao longo dos anos, desde que o livro foi publicado, inúmeras cartas de jovens adolescentes que lhe agradeciam e enalteciam o quanto tudo aquilo escrito por ele, lhes salvaram de alguma forma.

O título original do livro e do filme vale a pena ser melhor compreendido. Wallflower é um termo em inglês que diz respeito a alguém que está sem par em um baile e fica encostado na parede, alguém que está à margem do que se passa, um observador. Até que a tradução para o português ficou interessante, já que não teríamos uma palavra específica para tal expressão. Sendo assim, é possível considerar que ter um certo tipo de invisibilidade, pode realmente ser uma boa conotação para descrever um wallflower.

A época em que o filme se passa não fica muito clara. Vemos os personagens fazendo mixagens em fitas cassetes e não há a presença de computadores ou celulares. No entanto, o figurino não nos remete aos anos 70 ou 80. Talvez o uso dessa não referência de época tenha sido intencional, como forma de reforçar uma ideia mais universal de nostalgia. A fotografia também contribui, ao utilizar uma certa granulação.

A história gira em torno de Charlie, o wallflower em questão, que se prepara para ingressar no high school (ensino médio). O filme começa com a narração dele, sob forma de uma carta sendo escrita para um amigo. A sua narrativa permeia seus acontecimentos, ao mesmo tempo que acompanhamos suas reflexões. Com isso, também vamos, aos poucos, conhecendo e entendo melhor a sensibilidade, inteligência e timidez de Charlie. Sua vida muda quando ele faz novas amizades e conhece Sam e Patrick. A notável química entre os três atores é um mérito que merece ser observado. A escolha de Stephen foi bastante acertada: Emma Watson (Sam), que finalmente conseguiu tirar o estigma de sua personagem, durante anos, em “Harry Potter” (idem, 2001-2011), aparece aqui com um novo corte de cabelo e sem o seu nativo sotaque britânico; Ezra Miller (Patrick), que ficou conhecido como o personagem-título do, excelente, “PrecisamosFalar Sobre Kevin(We Need To Talk About Kevin, 2012), se apresenta agora em um papel totalmente diferente, de um jovem gay com um afinadíssimo senso de humor; Logan Lerman (Charlie), que assim como Emma, estreou nos cinemas ainda criança, em “O Patriota” (The Patriot, 2000), e está de uma forma absolutamente sublime e comovente. Enfim, esse jovens atores muito ainda prometem, dada a naturalidade e sinceridade de suas atuações.

Apesar de Charlie ser um freshman (calouro), Sam e Patrick, que já são seniors (veteranos, no último ano escolar) o acolhem em seu círculo de amizades. Sendo que, isso não seria considerado algo muito comum dentro do universo que vivem, como já foi visto em diversos filmes que abordavam tal tema. Dentre os diversos tipos de segregações existente nos high schools americanos, o grau de ensino seria um dos motivos para que os alunos não se “misturem”. Com isso, Charlie consegue ter uma vida mais sociável e menos isolada. Isolamento esse que vai tendo o seu motivo revelado aos poucos. Durante uma festa, Charlie, que fica levemente dopado, conta à Sam que o seu melhor amigo se matou no ano anterior. O que nos leva a compreender uma cena vista anteriormente dele tomando alguns remédios, que poderiam ser antidepressivos. No entanto, o foco do filme não recai sobre tal assunto. Pelo contrário, vai fluindo e é intercalado por alguns flashbacks de Charlie quando criança e de sua relação com uma tia, que era alguém de quem ele gostava muito. As imagens e recordações dele com a tia vão ficando cada vez mais recorrentes, até finalmente entendermos o motivo de tal ligação. O auge catártico das emoções de Charlie surgem quando termina o período escolar e Sam e Patrick vão para a faculdade. Tudo que aconteceu em seu passado vem à tona, somada a despedida dos seus amigos.

O ritmo da montagem do filme nos leva a uma grande emoção, ao reservar para o seu final o complemento daquilo que, de maneira surpreendente e esclarecedora, poderia ser a causa do extremo grau de dificuldade de Charlie em se expor e expressar seus sentimentos. Ao mesmo tempo, também revela o quanto ele precisa vivenciar suas relações, mesmo sabendo que não haverá garantias e que ele poderá sofrer novamente com elas. Porque, às vezes, a vida, realmente, nos afeta de um modo totalmente inesperado, no entanto, ela mesma nos mostra o quanto temos a capacidade de transformá-la em algo ainda maior, além até de nós mesmos. Pois, como Charlie diz: “nós somos infinitos!” E assim, somos embalados com a música-hino do filme (Heroes, de David Bowie), que curiosamente, teve uma regravação feita pela banda, liderada pelo filho de Bob Dylan, The Wallflowers: “we can be heroes, just for one day... / we can be heroes, for ever and ever”.

domingo, 7 de outubro de 2012

Festival do Rio 2012


Este ano estou levando o festival de forma bem tranquila. E, curiosamente, estou reparando que tem acontecido sempre alguma situação interessante durante ou depois das sessões. Até agora assisti cinco filmes. E reparei que para cada sessão, sempre tiro alguma frase marcante daquele dia. Vamos então a alguns desses filmes e suas respectivas situações e frases.

ELENA (idem, 2011), de Andrei Zvyagintsev. A produção russa foi vencedora do Prêmio Especial do Júri, no Festival de Cannes de 2011. Andrei é o mesmo diretor de O Retorno (Vozvrashchenie, 2003), que, na época, ganhou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Veneza. Elena narra a história da personagem título, que possui uma relação de esposa/empregada/enfermeira com Vladimir. Eles se consideram casados, no entanto, dormem em cômodos separados. Aos poucos vamos entendendo como Elena entrou na vida do homem com quem mora. Percebemos que ele possui uma boa condição financeira e tem uma filha, que raramente vê. Elena tem um filho extremamente acomodado e preguiçoso, que é casado e tem dois filhos. Ela ajuda-os financeiramente, através de contribuições que consegue através de seu marido, que deixa claro não concordar com essa atitude dela em relação ao filho. Após sermos apresentados a tais situações, Vladimir sofre um infarto e é levado para o hospital. Ele solicita à Elena que entre em contato com sua filha, pois deseja vê-la neste momento em que se encontra enfermo. Considero o diálogo dos dois, no quarto do hospital, como sendo o momento essencial do filme. A opinião de sua filha sobre o motivo pelo qual as pessoas insistem em constituir uma família, ilustra de maneira prévia, exatamente o que irá ocorrer nos acontecimentos seguintes. [Spoiler] Elena acaba matando Vladimir para poder ficar com seu dinheiro e sua casa e leva a família de seu filho para morar lá.
Situação interessante: Um pouco antes do final do filme, de repente, ele para. Todos no cinema acham que acabou. No entanto, os créditos não sobem. As luzes se acendem e todos ficam comentando: “Ué, acabou mesmo? Será?” As pessoas vão se levantando e saindo da sala sem entender muito bem. Até que o senhor que estava ao meu lado diz algo que passa a fazer muito sentido: “Elena roubou tudo dele! Até mesmo os créditos!” Achei sensacional, porque se o diretor realmente tivesse feito isso, de não colocar os créditos finais intencionalmente, faria realmente sentido para o contexto do filme. Mas, aí surge uma mulher que é funcionária do cinema e diz para todos que o filme não acabou. A película se rompeu e estava sendo consertada, pois ainda faltava 1 minuto para terminar. Ficamos então esperando por um tempo, até que ela retornou, e parecia estar já com uma certa impaciência, pois uma outra sessão iria ocorrer na mesma sala. E então ela simplesmente nos conta o final do filme. Todos aplaudem e saem rindo com tal situação, que foi muito engraçada.

A COLEÇÃO INVISÍVEL (2012), de Bernard Attal. A produção é dirigida por um francês, que se apaixonou pelo Brasil, mais especificamente a Bahia, local onde o filme é situado. O roteiro é baseado num conto do escritor austríaco, Stefan Zweig, e foi escrito pelo próprio Bernard, com a ajuda do também diretor Sérgio Machado. É estrelado por Vladimir Brichta, cujo personagem vai para o interior da Bahia em busca de uma coleção vendida pelo seu pai a um colecionador, que é vivido por Walmor Chagas. Pelo fato de Brichta fazer muitos papéis cômicos é um pouco difícil vê-lo atuando de forma séria, em uma história sensível. No entanto, o tom do filme consegue empurrá-lo para nos mostrar esse seu outro lado de interpretação.
Situação interessante: Assisti esse filme no Pavilhão do Festival, onde após a exibição, geralmente acontece um debate com o diretor e os atores. Fui assistir o debate e lá descobrimos que o que trouxe realmente o diretor francês para a Bahia foi Jorge Amado. Ele é completamente apaixonado pela obra do autor baiano. Isso nos prova que a arte é mesmo universal, não importa a língua que se fale. Depois, durante o debate, foi falado sobre a função da profissão de ator. Bernad nos conta que não precisou falar muita coisa para Walmor Chagas, pois ele já sabia o que devia ser feito. E então Walmor diz uma frase que considerei muito interessante: “O ator é um exibicionista. E ao nos exibirmos, revelamos o nosso íntimo e o íntimo de todo mundo, pois representamos aquilo todos nós somos”.

THE PLEASURE GARDEN (idem, 1925), de Alfred Hitchcock. Esse ano o festival está com uma mostra chamada Foco Reino Unido e foram selecionados alguns filmes antigos e clássicos para serem exibidos. Esse foi o primeiro filme de Hitchcock, ainda na época do cinema mudo. Trata-se de uma história de duas dançarinas que trabalham numa casa chamada Jardim dos Prazeres. Uma é a mocinha de vida simples, que mora com um cachorro em um pequeno apartamento. A outra é uma esnobe e ganaciosa, que quer subir na vida de qualquer jeito.
Situação interessante: O filme foi exibido na praia de Copacabana em um telão montado na areia. A trilha sonora foi tocada ao vivo pela Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem. Foi tudo muito bonito e, ao mesmo tempo, moderno e nostálgico, de ver uma situação como essa em plena praia. Após as vinhetas de patrocínio, todos fizeram um enorme silêncio, pois o filme ia começar. Exatamente nesse momento, um vendedor grita: “Olha o biscoito globo, refrigerante e água mineral!” Todo mundo riu muito e logo em seguida o filme começou.