quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mia


O filme escrito e dirigido pelo ator argentino Javier Van de Couter, foi exibido no 20º Festival Mix Brasil de Cultura e Diversidade, que acontece todo ano em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo que levou, este ano, o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A produção também recebeu o prêmio de Melhor Direção no 30º Festival Internacional de Cinema de Havana.

A personagem-título do filme não está presente de forma visível. O que sabemos dela está contido nas suas próprias palavras que são lidas, inicialmente, por Ale, um travesti que trabalha catando papelões nas ruas de Buenos Aires. Ale recolhe uma caixa jogada no lixo e nela encontra um diário e outros itens que pertenciam a Mia. A partir daí, ela passa a se envolver de uma maneira extremamente emocional com a vida que está ali relatada pela sua autora. Ao mesmo tempo, também nos é apresentado o contexto de vida de Ale, que mora em uma espécie de favela/comunidade, chamada Aldeia Rosa, onde vivem ali vários outros travestis. Além disso, notamos também a presença de uma pequena equipe de cinema que perambula pelas redondezas da favela. Eles conversam com os moradores a respeito de um documentário que pretendem fazer. Percebemos assim, que o filme, em alguns momentos, se mistura ao próprio documentário que está inserido na sua narrativa ficcional. Mesmo sabendo que o documentário faz parte da ficção, é interessante observar como a própria narrativa se questiona. Não só pelo fato de que os personagens travestis, realmente o são, nos dando assim uma impressão bastante real em relação aos sentimentos por eles expressados. Como também pelo fato de que descobrimos, quando sobem os créditos finais, que a tal Aldeia Rosa realmente existiu e foi dizimada pelo governo argentino, em 1997.

Em paralelo a questão social e humana dos travestis, conhecemos a história de Mia, que nos é apresentada através do que ela própria escreveu em seu diário pessoal. Ao ler suas palavras, Ale parece ser a única a compreendê-la e não julgá-la pelas atitudes e pensamentos que teve em relação a sua família. Principalmente no que diz respeito a sua pequena filha, Julia, que convive de forma bastante difícil com o pai, vivido por Rodrigo de La Serna (companheiro do jovem Che Guevara, em “Diários de Motocicleta”, 2004). Ele não consegue lidar com a perda da esposa e bebe diariamente, o que de nada ajuda no seu relacionamento com a filha. Enquanto isso, Ale vai se aprofundando cada vez mais no diário de Mia, até que resolve se aproximar de Julia e fazer amizade com a menina. Ela consegue, por fim, trabalhar na casa e se inserir por completo no contexto ao qual foi se familiarizando através do texto contido no diário. Notamos que o desejo de Ale em ter uma vida normal, com uma casa, uma família, “de ser quem ela quer ser”, como ela mesma diz, nos referencia do peso que se tem quando se é excluído socialmente. Afinal, seja a exclusão de qualquer tipo, fica evidente quanto o ser humano fica privado daquilo que lhe é inerente no seu direito mais básico como um cidadão existente, e presente, dentro de qualquer contexto social. E ao mesmo tempo, percebemos também o quanto a mãe de Julia não estava preparada para exercer tal função. Em um dado momento do seu diário, ela diz: “Mãe inexperiente procura substituta”. E Ale, parece querer atender tal solicitação. Esse momento me fez lembrar do filme “Precisamos Falar sobre Kevin” (We Need to Talk About Kevin, 2012), em que a personagem de Tilda Swinton também demonstra não ter nenhuma aptidão para cumprir o papel de mãe.

O recurso de usar um personagem principal que não aparece, funciona muito bem para o contexto do filme, uma vez que ilustra, de forma quase que metalinguística, a ausência de Mia na vida de sua filha. Hitchcock já havia feito tal uso de recurso no cinema, quando dirigiu a adaptação do livro de Daphne Du Maurier em “Rebecca, A Mulher Inesquecível” (Rebecca, 1940), cujo protagonista também não aparece. Ela é construída a partir do que os outros personagens falam sobre sua personalidade. Rebecca é apresentada de uma forma um tanto quanto não muito confiável, digamos assim. Isso porque essa é justamente a intenção, para que possamos nos surpreender com a guinada do filme. Já em Mia, conseguimos perceber a sua personalidade através do que ela mesma diz. É através do conteúdo de sua própria escrita que passamos a conhecê-la e definimos o seu perfil.

Mia revela ser uma pessoa que optou por se autoexcluir não só de sua vida familiar, como da vida por completo. E assim, é possível interpretar que o filme aborda o tema da exclusão de uma forma mais abrangente. Ou seja, além da visível e óbvia exclusão e preconceitos sociais sentidos pelos travestis da Aldeia Rosa, temos do outro lado uma protagonista que é igualmente incompreendida e profundamente julgada por todos, com exceção de Ale. Isso porque ela resolveu lidar com seus conflitos internos da forma que achou ser a mais correta dentro daquilo que sentia. Quando Julia pergunta para Ale o motivo pelo qual ela fala e se veste como mulher, esta responde: “porque é como me sinto”. Essa mesma resposta poderia ser a de Mia para o fato de não conseguir se expressar como uma mãe-esposa pertencente a uma família. O que está contido no íntimo de cada um é algo que pulsa tão forte, que não pode ser controlado ou encoberto por muito tempo, porque faz parte do que se é e do que precisamos para nos tornarmos completos. Coisas como preconceitos e julgamentos não passam de uma enorme ignorância pretensiosa. São apenas uma vã e inútil tentativa de enquadrarmos o que é certo e errado sob um parâmetro extremamente simplista dentro da imensidão indefinível que é a complexidade humana. Espero que o filme entre em circuito aberto para que consiga um alcance maior, e não fique restrito, e quase que também excluído, de um público ainda mais diversificado.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Gonzaga, de Pai para Filho


O diretor Breno Silveira retoma o tema biográfico no cinema ao retratar a vida de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Anteriormente, em 2005, havia feito “2 Filhos de Francisco”, contando a história da dupla sertaneja Zezé di Camargo e Luciano. E, novamente, com Patrícia Andrade, divide a parceria no roteiro do filme, que centra sua narrativa na difícil relação entre pai e filho.

A semelhança física dos atores com seus personagens reais é o que mais surpreende. Destaque para Júlio Andrade, que parece ter, literalmente, incorporado Gonzaguinha. O ator gaúcho diz que sempre teve uma forte identificação com a música do cantor e que, inclusive, também chegou a cantar em barzinhos durante uma época de sua vida, e canções de Gonzaguinha faziam parte de seu repertório. Além de Júlio, o ator mirim Alison Santos representa o cantor em sua infância. Sendo que ele já era conhecido de Breno, pois havia feito o teste para seu filme anterior, “À Beira do Caminho”. O Gonzaguinha adolescente ficou por conta de Giancarlo Di Tommaso. Ambos atores estão em atuações deslumbrantes ao transmitirem a revolta de um filho com um pai sempre ausente e que nunca lhe demonstrou amor e carinho. E este também é vivido por três atores diferentes: Land Vieira, vive o Luiz adolescente, morando com sua família em Exu, cidade no interior do sertão pernambucano; Chambinho do Acordeon, faz Gonzagão em seu momento de ascenção e reconhecimento público; e Adélio Lima interpreta ele aos 70 anos de idade, conversando e tentando se entender com o filho. Vale ressaltar que a escolha de Chambinho aconteceu em uma seleção entre cinco mil canditados. Breno diz ter escolhido ele graças ao seu sorriso, que transmitiria justamente a alegria de Gonzagão, além, é claro, do fato dele já ser um profissional do acordeon.

O filme está dividido em dois tempos narrativos: o tempo presente, que é 1980; e o tempo passado, que é mostrado à medida que Gonzaga vai contando sua história para o filho. O mote central está na conversa entre os dois, que acaba virando uma espécie de entrevista, que realmente foi gravada por Gonzaguinha, na época, e serviu também como material de pesquisa para a produção. Por ser um filme biográfico, a montagem tem como privilégio fazer uso de imagens de arquivo dos verdadeiros personagens de sua história. Isso poderia causar uma certa confusão de linguagem, no entanto, funciona como algo complementar dentro do contexto apresentado. A trilha sonora faz uso de instrumentos musicais que funcionam como leitmotivs para os personagens. Gonzagão é acompanhado, logicamente, pelo som do acordeon e para Gonzaguinha, o som que ouvimos é do violão. Além de também estar presente canções dos próprios cantores, afinal se trata de dois grandes nomes da música brasileira, e é claro, que elas permeiam todo o filme. Tanto que, em alguns momentos, são utilizadas de forma quase descritivas. Por exemplo, quando Luiz retorna, já consagrado, à Exu para rever sua família, seu pai, Januário, abre a porta e em seguida vemos a casa se transformar numa grande festa. O momento é embalado pela música “Respeita Januário”, cuja letra descreve exatamente o que nos é mostrado em cena.

Percebemos que o tom do filme nos leva a uma visão um tanto quanto geral, pois opta por não se aprofundar em algumas questões, como por exemplo, o real motivo do descaso afetivo do pai com o filho. Especula-se que sua mãe teria conhecido Luiz Gonzaga já grávida. No entanto, a escolha do roteiro prefere apontar que a dificuldade da relação dos dois se sustenta pelas visíveis diferenças de opiniões e visões de mundo que eles expressam. Afinal, Gonzagão veio do sertão e não recebeu uma educação tradicional, já Gonzaguinha, foi criado na cidade grande e estudou nos melhores colégios. Porém, independente de quaisquer fatores, ou justamente por causa deles, ambos são dotados de uma enorme riqueza artística, que realmente merecia ser engrandecidamente registrada na tela do cinema.