segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Som ao Redor


Kleber Mendonça Filho finalmente estreia seu primeiro longa de ficção. O diretor e roteirista, que também foi crítico de cinema, ficou conhecido pelos seus premiados curtas como “Vinil Verde” (2004) e “Recife Frio” (2009) [quem quiser assitir, está diponível no Porta Curtas]. E não poderia ter sido uma estreia melhor; o longa é vencedor de importantes prêmios em diversos festivais no Brasil e no mundo. Além de ter sido listado pelo The New York Times como um dos 10 melhores filmes de 2012 ao lado de diretores como Tarantino, Spielberg e Haneke.

O filme começa com uma série de fotos em preto e branco de pessoas que parecem ser de uma área rural. Em seguida vemos uma criança andando de patins dentro de um condomínio de prédios residenciais. A partir daí somos apresentados aos moradores de um bairro de classe média do Recife/PE. A narrativa nos leva para dentro dos apartamentos e cotidiano dos diferentes habitantes que ali residem. Contudo, o que realmente interessa nas imagens e na montagem é aquilo que se sobressai nas entrelinhas, no espaço sonoro e visual do que se ouve e se vê na tela, principalmente diante do que não esteja ali explicitado. Com o uso de uma trilha sonora marcante e de forma crescente em relação à narrativa, temos a constante sensação de que sempre há algo por trás das imagens aparentemente inocentes. Remete-se bastante ao estilo de montagem de Stanley Kubrick. Inclusive na cena da cachoeira, há um momento em que mostra um dos personagens se banhando em sangue, o que parece sublinhar ainda mais a referência de Kleber com Kubrick.

Os atores atuam de uma forma extremamente natural e tranquila. É claro que esse ar de tranquilidade fica por conta, em boa parte, do relaxado sotaque pernambucano. Acompanhamos as variadas famílias do bairro e vamos conhecendo a rotina de cada uma, como por exemplo, a família da dona-de-casa, casada, com dois filhos e que não dorme porque o cachorro do vizinho não para de latir. E também a família daquele que é o proprietário de vários prédios do bairro. Além dos personagens existentes em quase todas áreas residenciais: o lavador de carros, o entregador de água, vizinhos, crianças, empregadas domésticas etc. Tudo parece muito normal e costumeiro, até que surge uma equipe de segurança oferecendo uma espécie de guarda e vigília pelas redondezas. Equipe essa que é liderada pelo ator Irandhir Santos, cujo personagem parece não conquistar muito a confiança justamente dos membros da família detentora de mais recursos financeiros da região. O motivo se deve ao fato de que um dos membros dessa família é uma espécie de adolescente-problema causador de alguns aborrecimentos já conhecidos pelas ruas do bairro. Assim, percebemos que há uma certa hierarquia entre os habitantes, tanto que a equipe de segurança precisa pedir autorização àquele que é tido como o patriarca da área, para que possam realizar seu trabalho. Neste momento o filme ressalta o quanto ainda convivemos dentro de em um sistema feudal velado até os dias de hoje, porém, agora composto por prédios englobados em grandes complexos de condomínios. A cena final reforça tal alusão ao revelar a conexão existente com as fotos em preto e branco mostradas no início. 

Kleber consegue fazer um filme de minúcias, em que o complemento do que acontece na tela ocorre fora dela, no chamado extracampo, um conceito de linguagem cinematográfica que se volta para o espectador da imagem fílmica. Onde tudo que ocorre está no processo inconsciente da leitura que fazemos dentro de um contexto narrativo presente naquilo que não está declaradamente exposto. Assim como internalizamos as imagens que não vemos, o mesmo ocorre com os sons inaudíveis e metafóricos, por exemplo, em um silêncio que é mais assustador que um grito, ou fogos de artifício que simulam tiros de uma arma. Tudo isso faz parte do que podemos, como disse Deleuze, pensar sobre a potência invisível presente nos filmes. E “O Som ao Redor” se expressa de uma forma a não subestimar a inteligência de seus espectadores, ao saber explorar a vastidão dos recursos da arte cinematográfica com um requinte de obras de grandes diretores e com a originalidade de ser brasileiro.