quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Tatuagem



Os cineastas pernambucanos vêm cada vez mais se destacando no cenário cinematográfico brasileiro e aos olhos da crítica internacional. Só para citar alguns: Marcelo Gomes, com “Cinema Aspirinas e Urubus” (2005) foi selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), no Festival de Cannes; Kleber Mendonça, com “O Som ao Redor”, foi considerado pelo jornal The New York Times como um dos dez melhores filmes de 2012.

Azul é a cor mais quente


O diretor tunisiano, Abdellatif Kechiche nos apresenta um estilo de filmagem extremamente naturalista em “Azul é a cor mais quente” (La Vie D'Adèle, 2013). O filme é uma livre adaptação da HQ Bleu Est Une Couleur Chaude, escrita e desenhada pela francesa Julie Maroh e narra uma história de amor entre duas meninas. O filme se baseia nesse contexto para dissecar minuciosamente todo o processo de uma relação amorosa, desde o seu início até o fim. O que chama atenção é a forma como esse recorte é feito e conduzido, prezando valorizar o tempo dos acontecimentos e os sentimentos das personagens envolvidas.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Gravidade


A proposta de “Gravidade” (Gravity, 2013) é um convite para se vivenciar uma completa imersão espacial. Imersão essa que, de forma abrangente, se dimensiona em vários sentidos: no espaço sideral em si, no espaço emocional e no espaço cinematográfico, catalisador da relação conectiva que se estabelece entre a obra e o seus espectadores.

O Homem das Multidões


Dentre os filmes brasileiros, concorrentes da Première Brasil Competição de Ficção - Longas, do Festival do Rio 2013, o destaque é para “O Homem das Multidões” (2013), de Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Livremente inspirado no conto de Edgar Allan Poe (The Man of the Crowd, 1840), narra a história de um homem que gosta de observar as pessoas que circulam pela multidão de uma grande metrópole.

domingo, 25 de agosto de 2013

Frances Ha



Frances é o nome da personagem vivida pela atriz Greta Gerwig, que também assina o roteiro do filme em parceria com Noah Baumbach. Noah passou a ter mais reconhecimento após o filme “A Lula e a Baleia” (The Squid and the Whale, 2005), que também escreveu e dirigiu. Greta atua mais no cenário de filmes independentes americanos, mas já participou de produções que fazem parte do mainstream, como “Para Roma com Amor” (To Rome With Love, 2012), de Woody Allen e “Sexo Sem Compromisso” (No Strings Attached, 2011), de Ivan Reitman. “Frances Ha” (idem, 2012) tem como parceria de produção a produtora brasileira do Rodrigo Teixeira, a RT Features, que já produziu filmes como “O Cheiro do Ralo” (2006) e “Heleno” (2011).

Bling Ring, A Gangue de Hollywood


O vazio existencial parece ser o tema recorrente de Sofia Coppola, que desde o seu primeiro longa, “As Virgens Suicidas” (The Virgin Suicides, 1999), vem retratando, em variados níveis, a incansável busca de seus personagens em preencher esse vazio. Seu mais recente filme parece, mais uma vez, não fugir dessa premissa. “Bling Ring, A Gangue de Hollywood” (The Bling Ring, 2013) é baseado em um artigo publicado pela jornalista Nancy Jo Sales para a revista "Vanity Fair", cujo título é “Os suspeitos usavam Louboutins”. Nele, ela relata e faz uma análise sobre o fato ocorrido entre 2008 e 2009 em que jovens de classe média alta de Los Angeles, roubavam mansões de pessoas ricas e famosas, tais como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Orlando Bloom. O foco em jovens ricos sempre foi objeto de estudo da jornalista, que os acompanha de perto desde 1996.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Depois de Lúcia


Esse é o segundo longa do diretor mexicano Michel Franco, que levou o prêmio Un Certain Regard (Um Certo Olhar) no Festival de Cannes de 2012, prêmio este que é voltado para diretores estreantes. Podemos dizer que o título do prêmio realmente faz jus a produção. Isso porque a força do filme está justamente no exercício do olhar, tanto da câmera quanto de seus espectadores. Franco faz uso de planos quase sempre mais abertos e longos, além de uma insistente câmera estática. O close, praticamente, não é utilizado.

O roteiro, que também é assinado pelo diretor, traz uma narrativa linear e que vai lentamente revelando a história. O filme começa com um curioso plano sequência em que vemos de dentro de um carro um homem dialogar com outro sobre os reparos feitos no veículo.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Anna Karenina


Joe Wright é um diretor que, certamente, merece a devida atenção. Ele vem se destacando não só pela busca em trazer clássicos da literatura para o cinema, assim como, fazer disso um constante exercício de tornar o ato de dirigir uma verdadeira aventura. Nesse sentido, destacam-se suas obras, tais como: “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, 2005), baseado no livro de mesmo nome da autora inglesa Jane Austen, escrito em 1813 e, “Desejo e Reparação” (Atonement, 2007), baseado no romance do também autor inglês, Ian McEwan, de 2001. Neste último, ele demonstra total maestria ao nos apresentar um dos mais geniais plano sequência em travelling da história do cinema. Agora, ele nos presenteia com um clássico da literatura russa, “Anna Karenina”, de L. Tolstói, publicado em 1877.
 
Karenina já teve cinco adaptações para o cinema, sendo esta a sexta. E Wright consegue surpreender ao nos recontar a história de uma forma inusitada e ousada. Ele utiliza uma linguagem teatral ao brincar amadurecidamente com os cenários que vão sendo, literalmente, descortinados, por meio de uma montagem que revela interessantes e curiosas passagens entre diferentes momentos do filme. Até mesmo a trilha sonora é incluída, quando vemos a música ser tocada por uma banda que atravessa o meio de uma das cenas. Tudo isso é feito de uma maneira extremamente bem orquestrada com uma direção recheada de detalhes absolutamente admiráveis. Vale destacar a impressionante cena da corrida de cavalos. Esse estilo já havia sido utilizado por Francis Ford Coppola, no seu brilhante “O Fundo do Coração” (One From the Heart, 1982). Parafrasear o teatro no cinema pode ser um risco que nem sempre funciona muito bem, afinal, cada uma dessas artes possuem especifidades muito próprias dentro de suas linguagens. Contudo, Wright consegue, ao mesmo tempo, diferenciá-las e agregá-las, equilibrando quando o que não é viável em uma ser preenchida pela outra.

Segundo o cineasta Serguei Eisenstein, a obra de Tolstói é de um moralismo feroz ao condenar o adultério, porém possui uma enorme capacidade de transmitir uma compreensão das nuances dos sentimentos humanos. Por vezes, Tolstói é considerado um verdadeiro doutrinador religioso, no entanto, é inegável o tom questionador e analítico das normas sociais contido na sua escrita.

Anna Karenina se passa na Rússia Czarista do século XIX e narra a história da personagem-título que é casada com um importante ministro do governo e acaba se envolvendo em um tórrido romance com um jovem conde. Na adaptação de Wright os personagens são interpretados, respectivamente, por Keira Knightley, Jude Law e o metamorfoseado promissor ator Aaron Taylor-Johnson, que fez filmes como “Kick Ass” (idem, 2010) e “Albert Nobbs” (idem, 2011). O conflito da trama está muito mais na relação adultério versus sociedade do que na questão da traição em si. É o olhar cruel e moralista dos membros que a compõe que Karenina sofre por escolher o amor à convenção. Ela passa a viver uma vida de cativeiro doméstico enquanto o seu conde circula livremente sem ser julgado. Pois, se historicamente, a mulher foi privada dos seus direitos, maior ainda era a recriminação por querer satisfazer os seus desejos. Somado a isso, ela acaba tomada por um ciúme doentio que a leva ao fim trágico que já conhecemos.

A adaptação do livro para roteiro de cinema ficou por conta do talentoso Tom Stoppard, responsável por filmes como “Império do Sol” (Empire of the Sun, 1987) e “Shakespeare Apaixonado” (Shakespeare in Love, 1998). Impossível também não notar a direção de arte de Katie Spencer, que sempre trabalha com Wright, e que dessa vez, deve ter tido o seu ofício redobrado ao elaborar os variados, e impecáveis, cenários teatrais que emolduram a narrativa do filme. E pode até ser que Oscar Wilde tenha razão ao dizer que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, porém se depender de Joe Wright a arte pode imitar outra arte, que imita uma outra arte e com isso provocar camadas infinitas que podem ser experenciadas dentro de uma vida que não dela somente imita, mas que com ela partilhe e reflita.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Indomável Sonhadora



O nome original do filme seria algo do tipo “Os Animais Selvagens do Sul” (Beasts of the Southern Wild), que contrapõe, em muito, a “tradução” do título para o português. E que inicialmente poderia aparentar um pouco pejorativo, uma vez que se refere aos habitantes humanos, e não animais, de uma determinada região do sul dos Estados Unidos. No entanto, o diretor Benh Zeiltin consegue desconstruir o conceito do que podemos considerar animalesco num ser humano ao transformar o universo conceitual de sua produção em uma obra, ao mesmo tempo, quimérica e verdadeira

A história é baseada na peça “Juicy and Delicious”, de Lucy Alibar, que inclusive auxiliou Benh na adaptação do roteiro para o cinema. Trata-se de um grupo de moradores de classe baixa que vivem em uma ilha apelidada de Bathtub (Banheira). Eles vivem isolados da cidade, que está separada por uma barragem. O ponto de vista da narrativa é de Hushpuppy, interpretada por Quvenzhané Wallis, que na época das filmagens, tinha apenas 6 anos de idade. Ela vive com seu pai em um barraco cheio de objetos que foram considerados lixo para algumas pessoas, mas que são de bastante utilidade doméstica dentro da moradia onde residem (a cena de como ela acende o fogão é sensacional!). Hushpuppy é uma criança que tem uma visão bastante lúdica e madura sobre a realidade que vive. Lúdica porque ela tem 6 anos de idade e, portanto, sua imaginação é sua maior aliada. E madura porque ela não se deixa abater pelas dificuldades e a dureza com que seu pai a educa. O que também fica claro no filme é que não se pretende apelar para sentimentalismos, pois o foco não está na pobreza ou em se panfletar sobre questões sociais e políticas. O mote principal é a forma como os acontecimentos da vida são encarados, dentro de um contexto mais amplo. A pobreza é apenas o pano de fundo para que se possa pensar sobre algo maior que está além do ambiente no qual se insere. Tanto que a narração em off de Hushpuppy permeia todo o filme com frases extremamente reflexivas.

O estilo de filmagem é câmera na mão, o que nos passa uma certa naturalidade das imagens, dando um ar quase que documental. Outro motivo que favorece esse tom natural é o fato do elenco ser composto por não atores. Dwight Henry (Wink), que faz o pai de Hushpuppy, é dono de uma padaria em Nova Orleans. E Quvenzhané Wallis, que foi escolhida entre 3.500 crianças, nunca havia atuado. Sua interpretação é completamente convicente, com aquela capacidade inerente às crianças. E que aliás, como foi comentado por Rubens Ewald Filho, durante a transmissão do Oscar, elas deveriam ter uma categoria especial somente para elas, pois pertencem a um outro tipo de universo interpretativo. E falando em Oscar, é realmente surpreendente que um filme como este tenha sido indicado como Melhor Filme. Afinal, é uma produção de baixíssimo orçamento, com um diretor estreante em longas, sem nenhum ator conhecido e cuja temática está na experiência de uma comunidade alternativa aos padrões ficcionais cinematográficos hollywoodianos. Inclusive, recomendo a leitura do texto de David Cox para o jornal britânico The Guardian, em que faz uma análise sobre o que os filmes indicados ao Oscar 2013 dizem sobre a América.

Para nós, brasileiros, o filme não soa tão diferente do que costumamos ver, seja em filmes documentais, ficcionais ou telejornais. O que chama atenção é a forma fantasiosa que corre em paralelo a narrativa, lhe dando um ar de fábula, equilibrando-se simultâneamente a seriedade, despretensiosidade e honestidade com que ela é tratada. Pode-se dizer que o filme parceiro de “Indomável Sonhadora” no Oscar seria “As Aventuras de Pi” (Life of Pi, 2012), pois ambos conseguem expressar de maneira simbólica uma visão panteísta de uma realidade que se revela intrínsecamente coerente a linguagem e circunstâncias ao qual se propõem. Enquanto Pi luta para sobreviver ao naufrágio, se vendo obrigado a encarar o selvagem tigre que representa seus medos, ego e vaidade. Hushpuppy já domina o seu próprio animal interno. Ela se torna o seu próprio tigre, o seu próprio auroque.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Amor


Michael Haneke é um genial sádico provocador. Basta olhar alguns de seus filmes: “Violência Gratuita” (Funny Games, 1997), “Professora de Piano” (La Pianiste, 2000), “Caché” (idem, 2005) e “Fita Branca”(Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte, 2009), sendo que com este último ele também foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes. Todos os seus filmes parecem estar na tela como forma de provocar o nosso olhar, a nossa paciência e a nossa sensibilidade. Isso porque ele preza por uma montagem naturalista, mostrando aquilo que geralmente é cortado durante esse processo. Ou seja, se um personagem diz para o outro esperar um instante enquanto ele vai chamar alguém, o que iremos ver é esse momento da espera. Assim, o personagem espera e nós, os espectadores, também. Além disso, o interesse de seus temas se articula com aquilo que se expressa como peculiaridades da nossa condição humana envoltas pelo seu olhar muito próprio e atípico. Temas como violências e fetiches injustificáveis ou ações ocorridas num passado que preferimos não mencionar, são alguns exemplos do que Haneke busca abordar. Podemos pensar que para ele a experiência da vida está naquilo que justamente optamos por negar ou esconder. E talvez por isso, entrar em contato com seus filmes seja um processo difícil.

Confesso que fiquei surpresa e extremamente curiosa quando soube que ele havia feito um filme com o título “Amor” (Amour, 2012). Mas, não me deixei enganar que seria algo com imagens românticas, meigas e sentimentais, pelo menos não no sentido padrão do que geralmente se encontra em filmes desse gênero. E realmente, e obviamente, o filme assim não é. Trata-se da história de um casal de idosos, George (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) e sua rotina dentro do apartamento onde moram. Eis que Anne sofre um AVC e fica com o lado direito do seu corpo paralisado. A partir daí, George passa a cuidar dela, e é também a partir desse momento, que Haneke nos mostra onde está o verdadeiro, sincero e incondicional amor entre duas pessoas. Isso tudo sem o menor vestígio de pieguice ou sentimentalismo. A ausência de trilha sonora já remove uma boa parcela do que não se pretende maximizar durante as cenas mais intensas. Outro fator é a fotografia em tons pastéis e frios, que nos faz ter um olhar mais prático e real de toda a situação vivida entre o casal. Isso se estende até mesmo no figurino dos personagens, tanto que a filha do casal (Isabelle Huppert), que é quem fica mais abalada e emotiva em relação a história, usa roupas mais coloridas. O filme se passa somente em uma locação, que é o apartamento onde George e Anne vivem. As únicas paisagens que vemos são as dos quadros pendurados nas paredes, havendo inclusive uma cena em que se mostra uma sequência deles.

As atuações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva é algo quase que inacreditável de tão perfeito. Principalmente para Emmanuelle, que com seus 85 anos de idade, se propõe a uma entrega completa a uma personagem que se definha física e mentalmente. São cenas consideradas corporalmente difíceis para uma atriz jovem, quem dirá para ela. Sua atuação está simplesmente magistral! Já Trintignant é um ator “monstro, mas gentil”, como diz Anne para George em uma das cenas do filme. Cena esta que considero o núcleo semântico da narrativa. George conta uma história para Anne de que quando era jovem foi assistir a um filme romântico e saiu completamente emocionado. Ao voltar para casa, encontrou com um vizinho que era um brutamontes e contou para ele sobre o filme que tinha visto. Ao relatar a história do filme, ele se emocionou novamente e chorou na frente do brutamontes. George diz não se lembrar bem sobre o que era a história do filme, mas se lembrava claramente como havia sido a sua emoção. E é isso que Haneke quer nos dizer, que não importa como, onde ou qual é o motivo de sentirmos o que sentimos, o que vale é a emoção em si e o reconhecimento dela tal como ela venha. E que não há problema em admitirmos que a vida pode ser ao mesmo tempo incômoda, bela, difícil e surpreendente. Ela possui uma inteligência própria que se revela na nossa ilusória possibilidade de controlá-la. É por isso que o amor que Haneke nos oferece não é para quem tem coração, e sim para quem tem estômago.