quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Indomável Sonhadora



O nome original do filme seria algo do tipo “Os Animais Selvagens do Sul” (Beasts of the Southern Wild), que contrapõe, em muito, a “tradução” do título para o português. E que inicialmente poderia aparentar um pouco pejorativo, uma vez que se refere aos habitantes humanos, e não animais, de uma determinada região do sul dos Estados Unidos. No entanto, o diretor Benh Zeiltin consegue desconstruir o conceito do que podemos considerar animalesco num ser humano ao transformar o universo conceitual de sua produção em uma obra, ao mesmo tempo, quimérica e verdadeira

A história é baseada na peça “Juicy and Delicious”, de Lucy Alibar, que inclusive auxiliou Benh na adaptação do roteiro para o cinema. Trata-se de um grupo de moradores de classe baixa que vivem em uma ilha apelidada de Bathtub (Banheira). Eles vivem isolados da cidade, que está separada por uma barragem. O ponto de vista da narrativa é de Hushpuppy, interpretada por Quvenzhané Wallis, que na época das filmagens, tinha apenas 6 anos de idade. Ela vive com seu pai em um barraco cheio de objetos que foram considerados lixo para algumas pessoas, mas que são de bastante utilidade doméstica dentro da moradia onde residem (a cena de como ela acende o fogão é sensacional!). Hushpuppy é uma criança que tem uma visão bastante lúdica e madura sobre a realidade que vive. Lúdica porque ela tem 6 anos de idade e, portanto, sua imaginação é sua maior aliada. E madura porque ela não se deixa abater pelas dificuldades e a dureza com que seu pai a educa. O que também fica claro no filme é que não se pretende apelar para sentimentalismos, pois o foco não está na pobreza ou em se panfletar sobre questões sociais e políticas. O mote principal é a forma como os acontecimentos da vida são encarados, dentro de um contexto mais amplo. A pobreza é apenas o pano de fundo para que se possa pensar sobre algo maior que está além do ambiente no qual se insere. Tanto que a narração em off de Hushpuppy permeia todo o filme com frases extremamente reflexivas.

O estilo de filmagem é câmera na mão, o que nos passa uma certa naturalidade das imagens, dando um ar quase que documental. Outro motivo que favorece esse tom natural é o fato do elenco ser composto por não atores. Dwight Henry (Wink), que faz o pai de Hushpuppy, é dono de uma padaria em Nova Orleans. E Quvenzhané Wallis, que foi escolhida entre 3.500 crianças, nunca havia atuado. Sua interpretação é completamente convicente, com aquela capacidade inerente às crianças. E que aliás, como foi comentado por Rubens Ewald Filho, durante a transmissão do Oscar, elas deveriam ter uma categoria especial somente para elas, pois pertencem a um outro tipo de universo interpretativo. E falando em Oscar, é realmente surpreendente que um filme como este tenha sido indicado como Melhor Filme. Afinal, é uma produção de baixíssimo orçamento, com um diretor estreante em longas, sem nenhum ator conhecido e cuja temática está na experiência de uma comunidade alternativa aos padrões ficcionais cinematográficos hollywoodianos. Inclusive, recomendo a leitura do texto de David Cox para o jornal britânico The Guardian, em que faz uma análise sobre o que os filmes indicados ao Oscar 2013 dizem sobre a América.

Para nós, brasileiros, o filme não soa tão diferente do que costumamos ver, seja em filmes documentais, ficcionais ou telejornais. O que chama atenção é a forma fantasiosa que corre em paralelo a narrativa, lhe dando um ar de fábula, equilibrando-se simultâneamente a seriedade, despretensiosidade e honestidade com que ela é tratada. Pode-se dizer que o filme parceiro de “Indomável Sonhadora” no Oscar seria “As Aventuras de Pi” (Life of Pi, 2012), pois ambos conseguem expressar de maneira simbólica uma visão panteísta de uma realidade que se revela intrínsecamente coerente a linguagem e circunstâncias ao qual se propõem. Enquanto Pi luta para sobreviver ao naufrágio, se vendo obrigado a encarar o selvagem tigre que representa seus medos, ego e vaidade. Hushpuppy já domina o seu próprio animal interno. Ela se torna o seu próprio tigre, o seu próprio auroque.