sexta-feira, 29 de março de 2013

Anna Karenina


Joe Wright é um diretor que, certamente, merece a devida atenção. Ele vem se destacando não só pela busca em trazer clássicos da literatura para o cinema, assim como, fazer disso um constante exercício de tornar o ato de dirigir uma verdadeira aventura. Nesse sentido, destacam-se suas obras, tais como: “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice, 2005), baseado no livro de mesmo nome da autora inglesa Jane Austen, escrito em 1813 e, “Desejo e Reparação” (Atonement, 2007), baseado no romance do também autor inglês, Ian McEwan, de 2001. Neste último, ele demonstra total maestria ao nos apresentar um dos mais geniais plano sequência em travelling da história do cinema. Agora, ele nos presenteia com um clássico da literatura russa, “Anna Karenina”, de L. Tolstói, publicado em 1877.
 
Karenina já teve cinco adaptações para o cinema, sendo esta a sexta. E Wright consegue surpreender ao nos recontar a história de uma forma inusitada e ousada. Ele utiliza uma linguagem teatral ao brincar amadurecidamente com os cenários que vão sendo, literalmente, descortinados, por meio de uma montagem que revela interessantes e curiosas passagens entre diferentes momentos do filme. Até mesmo a trilha sonora é incluída, quando vemos a música ser tocada por uma banda que atravessa o meio de uma das cenas. Tudo isso é feito de uma maneira extremamente bem orquestrada com uma direção recheada de detalhes absolutamente admiráveis. Vale destacar a impressionante cena da corrida de cavalos. Esse estilo já havia sido utilizado por Francis Ford Coppola, no seu brilhante “O Fundo do Coração” (One From the Heart, 1982). Parafrasear o teatro no cinema pode ser um risco que nem sempre funciona muito bem, afinal, cada uma dessas artes possuem especifidades muito próprias dentro de suas linguagens. Contudo, Wright consegue, ao mesmo tempo, diferenciá-las e agregá-las, equilibrando quando o que não é viável em uma ser preenchida pela outra.

Segundo o cineasta Serguei Eisenstein, a obra de Tolstói é de um moralismo feroz ao condenar o adultério, porém possui uma enorme capacidade de transmitir uma compreensão das nuances dos sentimentos humanos. Por vezes, Tolstói é considerado um verdadeiro doutrinador religioso, no entanto, é inegável o tom questionador e analítico das normas sociais contido na sua escrita.

Anna Karenina se passa na Rússia Czarista do século XIX e narra a história da personagem-título que é casada com um importante ministro do governo e acaba se envolvendo em um tórrido romance com um jovem conde. Na adaptação de Wright os personagens são interpretados, respectivamente, por Keira Knightley, Jude Law e o metamorfoseado promissor ator Aaron Taylor-Johnson, que fez filmes como “Kick Ass” (idem, 2010) e “Albert Nobbs” (idem, 2011). O conflito da trama está muito mais na relação adultério versus sociedade do que na questão da traição em si. É o olhar cruel e moralista dos membros que a compõe que Karenina sofre por escolher o amor à convenção. Ela passa a viver uma vida de cativeiro doméstico enquanto o seu conde circula livremente sem ser julgado. Pois, se historicamente, a mulher foi privada dos seus direitos, maior ainda era a recriminação por querer satisfazer os seus desejos. Somado a isso, ela acaba tomada por um ciúme doentio que a leva ao fim trágico que já conhecemos.

A adaptação do livro para roteiro de cinema ficou por conta do talentoso Tom Stoppard, responsável por filmes como “Império do Sol” (Empire of the Sun, 1987) e “Shakespeare Apaixonado” (Shakespeare in Love, 1998). Impossível também não notar a direção de arte de Katie Spencer, que sempre trabalha com Wright, e que dessa vez, deve ter tido o seu ofício redobrado ao elaborar os variados, e impecáveis, cenários teatrais que emolduram a narrativa do filme. E pode até ser que Oscar Wilde tenha razão ao dizer que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, porém se depender de Joe Wright a arte pode imitar outra arte, que imita uma outra arte e com isso provocar camadas infinitas que podem ser experenciadas dentro de uma vida que não dela somente imita, mas que com ela partilhe e reflita.