sexta-feira, 28 de março de 2014

Ninfomaníaca Vol. 2


A conclusão que se chega ao final da saga ninfomaníaca de Joe, personagem-título do filme, é que esta é a obra mais cinicamente honesta de Lars Von Trier. Em uma entrevista ao jornal inglês The Guardian, Charlotte Gainsbourg (Joe) diz o seguinte sobre Trier: “A escuridão nele ainda existe. É o que ele é. E novamente o cinismo. Mas, a sua visão é tão rica e o que ele coloca neste filme é tão rico e tão honesto! Ele tem o seu próprio jeito honesto de retratar a si mesmo. Sem receio de se comprometer e nem de tentar agradar ninguém”.

Assim como na primeira parte, a narrativa analítica, metalinguística e ainda mais cínica, continua. As histórias contadas por Joe a Seligman (Stellan Skarsgard) vão sendo apresentadas, com o diferencial de que o motivo que impulsiona suas novas “aventuras”, por assim dizer, é a busca pelo orgasmo perdido. Após concretizar fisicamente o seu desejo por Jerôme (Shia Labeouf), ela perde por completo o prazer sexual. Podemos pensar que o amor que ela sente por ele faz com que seu orgasmo seja anulado. Não é à toa que o slogan do filme é justamente “Esqueça o Amor”. E é isso que Joe faz e precisa fazer para conseguir recuperar aquilo que é realmente seu único bem precioso na vida, o seu prazer sexual. Ela abandona Jerôme e também o filho que teve com ele para mergulhar no universo masoquista com o auxílio de K (Jamie Bell). Somente através da dor é que ela finalmente consegue retomar o seu prazer.

Este é o filme em que Trier parece querer dizer, muito mais do que em seus anteriores, o quanto há de hipocrisia na sociedade em relação aos valores morais versus aquilo que realmente somos e o que nos é permitido ser. Dá a impressão que ele quis resumir tudo que já questionou anteriormente. Em “Os Idiotas” (Idioterne, 1998), um grupo de pessoas vive em uma comunidade e todos fingem se comportar como doentes mentais diante de variadas situações cotidianas. Em “Dogville” (idem, 2003) as pessoas vivem numa vila que nos é apresentada como um teatro cujas marcações das casas estão apenas desenhadas no chão. O exercício da dissimulação é um tema recorrente em sua obra, e afinal, ela está presente o tempo todo na vida das pessoas, em seus mais variados graus. Ela se faz necessária para a sobrevivência dos cidadãos dentro de uma sociedade. O que Trier discute é até que ponto isso pode nos aprisionar em nós mesmos. No Volume 2 vemos o desejo não concretizado de um pedófilo ser exposto perante um instinto que lhe foge ao controle. Ele se sente envergonhado e humilhado por sentir algo que não deveria.

A outra autorreferência que ele faz está na cena em que a criança novamente sai do berço e vai para a sacada da janela ao som da ópera Lascia Ch'io Pianga, assim como ocorre em “Anticristo” (Antichrist, 2009), porém, dessa vez, a criança não cai. Seu pai chega a tempo de segurá-la. É como se ele dissesse: não, não, esse é outro filme, mas com alguma coisa em comum.

“Preencha todos os meus buracos!”, diz Joe numa das cenas finais do filme. A ninfomaníaca de Trier quer ser preenchida. Esse sempre foi o seu desejo desde o início. E isso em todos os sentidos possíveis, física e emocionalmente. Seligman retoma toda a trajetória de Joe questionando a imensa culpa que ela carrega. “Será que um homem se comportando como você se comportou teria essa mesma carga de culpa?”, pergunta Seligman para Joe. Muitos críticos acusam Trier de ser misógino, afinal suas personagens femininas são representadas de uma maneira um tanto quanto fria e cruel. No entanto, em Ninfomaníaca ele revela o quanto o fardo que a mulher carrega é pesado. “Anticristo” foi considerado por alguns um filme extremamente machista, pois coloca a mulher como a própria encarnação do demônio. E realmente assim o é. Porém, vale lembrar que o ponto de vista dessa visão é do personagem masculino. Sem falar na emblemática cena final como o símbolo da libertação de todas as mulheres. Ora, se Eva não deveria morder o fruto proibido, então por que se criou o desejo nela? O desejo existe para ser reprimido? E se Adão tivesse mordido em vez de Eva? Dentro do contexto histórico-social-cultural-religioso, as mulheres sempre foram talhadas e coibidas de expressarem seus desejos. Se Trier faz com que suas personagens sejam cruéis e frias, talvez isso não esteja vinculado somente a uma possível misoginia, não é mesmo?

O filme termina com a sensação de que tudo que precisava ser dito e questionado ali está: sexo, religião, perversões, valores, padrões comportamentais, hipocrisia, dissimulações. Tudo que existe para que consigamos alcançar uma existência confortável requer sacrifícios que estão relacionados àquilo que abdicamos e/ou aceitamos. Joe é uma Ninfomaníaca que quer ser do jeito que ela é, e justamente por isso ela é honesta com ela mesma, assim como Trier está sendo ao nos mostrar uma personagem assim. Dentro do cinismo contido na narrativa ele consegue expor todos os seus pensamentos mais íntimos de uma maneira ousada e corajosa, como há muito não se via. Fica bem claro que, para Trier, o cinema é mais do que uma arte ou forma de expressão, ele é seu dispositivo catártico para expurgar suas inquietações, mesmo que para isso ele precise incitá-las ainda mais.

Um comentário:

Adecio Moreira Jr. disse...

Concordo inteiramente com o que Charlottre disse sobre Trier. E ainda acrescento que, apesar da escuridão que ainda existe nele, o cara ainda foi capaz de surpreender com um discurso feminista! Gostei muito do filme!